Se você já pegou trem em Milão, especialmente em uma linha que passa por Rogoredo, provavelmente já experimentou aqueles atrasos inexplicáveis ou cancelamentos repentinos. Mas o que realmente está acontecendo ali? Uma reportagem publicada hoje no Corriere della Sera revela uma realidade perturbadora que explica por que a Alta Velocidade italiana frequentemente desacelera naquela região: pessoas circulando pelos trilhos em busca de drogas.

A Rota da Desesperança

Todo dia, dezenas de pessoas atravessam os trilhos da ferrovia entre a estação de Rogoredo e San Giuliano Milanese. O motivo? Alcançar o que se tornou o maior mercado de drogas a céu aberto da região, escondido entre os trilhos, sob pontes e próximo às cabines elétricas.

De acordo com o jornalista Carlo d’Elia, o acesso é extremamente fácil – basta atravessar uma passagem na via Sant’Arialdo. E assim, diariamente, uma procissão silenciosa de “desesperados” (como os descreve o jornal) caminha perigosamente próxima aos trilhos onde passam mais de mil trens por dia, incluindo trens de Alta Velocidade, regionais e suburbanos.

Leia também: Onde comprar passagens de trem de alta velocidade na Itália

O Peso sobre os Maquinistas

A reportagem traz relatos impressionantes dos maquinistas que trabalham nessas linhas. Um deles revela: “Quando passo pelo trilho 8, fico preocupado. Em cerca de vinte segundos após deixar Rogoredo, já encontro as primeiras pessoas nos trilhos. Você os vê se moverem, às vezes cambaleando. Sabe que basta um segundo.”

As consequências são graves:

  • Trens precisam reduzir para 30 km/h em “marcha a vista” para detectar pessoas nos trilhos
  • Atrasos acumulados afetam toda a malha ferroviária italiana
  • Maquinistas trabalham sob pressão constante, muitas vezes sozinhos na cabine por cinco horas seguidas

O trauma psicológico de quem já vivenciou acidentes é devastador

Um maquinista que conversou com Simone Feder, psicólogo que atua na área de Rogoredo, descreveu o som de um atropelamento como “galhos se quebrando”. A frase é tão brutal quanto a realidade que esses profissionais enfrentam.

Trem de alta velocidade italiano se aproximando de galhos nos trilhos, ilustrando os perigos que maquinistas enfrentam diariamente na linha Rogoredo-San Giuliano Milanese
Atrasos em Rogoredo: a metáfora visual do atropelamento de pessoas como galhos que se quebram (foto: gerada por IA)

Entre a Segurança e a Pontualidade

A situação criou um dilema operacional: aplicar rigorosamente os protocolos de segurança significaria praticamente parar o sistema ferroviário do país. Como explica um maquinista experiente: “Se aplicássemos tudo à letra, realmente pararíamos o país. Mas às vezes fechamos os olhos.”

No final de janeiro, a circulação em Rogoredo sofreu fortes atrasos por três horas e meia – não por causa de mau tempo ou falhas técnicas, mas pela presença de pessoas nos trilhos.

O que mais impressiona no relato é a empatia dos ferroviários. Não há raiva ou julgamento, mas um senso de “tragédia compartilhada”. Como disse um deles: “Os chamamos de viciados, suicidas, desesperados. Mas são pobres coitados. Quando acontece, o peso recai também sobre quem está no comando. E no dia seguinte, recomeça. Mesma rota, mesmos atrasos. Mesma prece silenciosa: que hoje, pelo menos hoje, não toque em ninguém.”

O Contraste de Milão

Há algo profundamente irônico nisso tudo: esses dramas se desenrolam literalmente ao lado do quarteirão Santa Giulia, onde fica a Arena – um dos símbolos das Olimpíadas de Inverno 2026 que estão acontecendo agora. De um lado, o evento esportivo internacional. Do outro, a desesperança e o abandono.


Agora você entende por que aquele seu trem atrasou em Rogoredo. Não é apenas uma questão de eficiência ferroviária – é um problema social complexo que afeta diariamente milhares de passageiros e coloca em risco a vida de pessoas vulneráveis e a saúde mental dos profissionais ferroviários.

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Barbara Bueno - brasilnaitalia
Barbara Bueno é uma jornalista brasileira que mora em Florença desde março de 2005. Foi para a Toscana em busca das suas origens italianas. Em janeiro de 2007 criou o blog BRASIL NA ITALIA. Já trabalhou como content manager para a Regione Toscana, obteve habilitação como assistente turística e foi proprietária de agência de viagem na Italia (até chegar a pandemia...). Hoje se interessa por criptomoedas e voltou a fazer o que mais gosta: buscar novidades, visitar lugares interessantes e escrever! Se você tem uma dúvida sobre a Italia visite a seção Dúvidas sobre a Italia.

1 COMENTÁRIO

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