As buchette del vino de Florença aparecem hoje em praticamente todo roteiro turístico criado para as redes sociais. São vídeos de mãos recebendo taças por pequenas janelas, filas diante de fachadas antigas e turistas registrando uma experiência que parece existir há séculos exatamente da mesma forma.
Mas há uma curiosidade: quando cheguei à Itália, em 2005, não me lembro de ninguém falando sobre as tais “janelas do vinho”. Eu frequentava Florença, caminhava pelo centro histórico e acompanhava o turismo na Toscana, mas as famosas janelinhas do vinho simplesmente não faziam parte das atrações divulgadas naquela época.
Elas já estavam lá, naturalmente. O que ainda não existia era o fenômeno turístico atual.
As buchette del vino são uma tradição antiga de Florença que passou séculos quase esquecida e foi redescoberta, restaurada e transformada em experiência justamente na era do Instagram.
Índice
O que são as buchette del vino

As buchette del vino são pequenas aberturas construídas nas paredes de palácios e residências históricas de Florença. Geralmente têm formato arqueado e são grandes o suficiente para a passagem de uma garrafa ou de um frasco de vinho.
Na época em que eram utilizadas, permitiam que famílias nobres florentinas vendessem diretamente o vinho produzido em suas propriedades rurais.
O cliente batia na pequena porta, fazia o pedido e recebia o vinho pela abertura, sem precisar entrar no palácio.
Durante séculos, elas funcionaram como pequenos pontos de venda do produtor para o consumidor. A Prefeitura de Florença descreve essas aberturas, originalmente chamadas de finestrini, como estabelecimentos que comercializaram vinho diretamente durante cerca de quatro séculos.
Quando surgiram as janelas do vinho de Florença
A venda direta de vinho nas casas dos proprietários de terras está documentada em Florença pelo menos desde 1559. O registro, porém, não menciona especificamente as buchette del vino
As pequenas aberturas começaram a aparecer nas fachadas dos palácios florentinos a partir do século XVI e, com o tempo, essa forma de venda direta se difundiu por Florença e outras áreas da Toscana.
Em vez de entregar a produção exclusivamente a intermediários ou comerciantes, essas famílias podiam vender parte do vinho diretamente aos moradores.
As janelas também ajudavam a manter uma separação entre os clientes que permaneciam na rua e os funcionários que trabalhavam dentro dos palácios.
Durante epidemias, essa distância acabou ganhando outra função.
As buchette eram usadas durante a peste?
As buchette del vino costumam ser apresentadas nas redes sociais como uma invenção criada durante a peste. Essa explicação é atraente, mas simplifica a história.
A venda direta de vinho nas casas dos proprietários já existia antes das epidemias do século XVII.
Durante a peste que atingiu Florença entre 1630 e 1633, porém, esse sistema também ajudou a reduzir o contato entre vendedores e compradores.
Um relato publicado em 1634 descreve comerciantes recebendo o pagamento com uma pequena pá metálica, sem tocar diretamente nas moedas, que depois eram mergulhadas em vinagre. Para evitar o contato com os recipientes trazidos pelos clientes, o vinho podia ser entregue já engarrafado ou transferido por meio de um pequeno tubo metálico.

O documento fala genericamente em um sportello, e não utiliza ainda os termos buchetta ou finestrino. Ainda assim, o relato mostra como a venda de vinho por pequenas aberturas podia ser adaptada para diminuir o contato durante uma epidemia.
Essa ligação entre uma prática antiga e uma forma de comércio quase “sem contato” voltaria a ganhar grande destaque séculos depois, durante a pandemia de Covid-19.
Por que quase ninguém falava delas em 2005?
No início dos anos 2000, a maioria das buchette del vino já não funcionava havia muito tempo.
Algumas tinham sido fechadas com tijolos. Outras haviam se transformado em pequenas portas, campainhas, caixas de correio ou nichos decorativos. Muitas continuavam visíveis nas fachadas, mas passavam despercebidas até mesmo pelos moradores.
Além disso, ainda não existia uma divulgação turística organizada em torno delas.

Não havia mapas populares como este ou este mostrando onde encontrá-las, placas identificando cada janela, vídeos virais nem estabelecimentos servindo taças para pessoas reunidas do lado de fora.
Em uma cidade com atrações como a Catedral de Santa Maria del Fiore, a Ponte Vecchio, a Galleria degli Uffizi e o David de Michelangelo, uma pequena abertura fechada na parede de um palácio dificilmente chamava a atenção espontaneamente.
Portanto, quem caminhou por Florença em 2005 provavelmente passou diante de várias buchette sem saber o que eram.
A redescoberta das buchette del vino
Cerca de dez anos depois, a situação começou a mudar. Em outubro de 2015, foi fundada a Associação Cultural Buchette del Vino, criada por Matteo Faglia, Diletta Corsini e Mary Christine Forrest com o objetivo de pesquisar, catalogar, proteger e divulgar essas pequenas janelas históricas.
A partir desse trabalho, as buchette começaram a sair do anonimato. A associação passou a localizar as aberturas ainda existentes, estudar documentos históricos, incentivar a instalação de placas de identificação e chamar a atenção para um patrimônio que, até então, permanecia quase invisível para moradores e visitantes.
Em 2021, o livro Firenze e Toscana. Le buchette del vino, das historiadoras da arte Diletta Corsini e Lucrezia Giordano, reunia imagens de 180 janelas catalogadas em Florença e de outras 100 ainda visíveis no restante da Toscana.
Uma edição atualizada, publicada posteriormente, já reúne mais de 300 referências cadastradas pela associação.
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Atualmente, o próprio Município de Florença disponibiliza um conjunto de dados com a localização geográfica de 180 buchette existentes no território municipal. Cerca de 30 ficam fora do antigo círculo de muralhas, enquanto outras podem ser encontradas na região metropolitana.
Ou seja, elas não apareceram recentemente. O que mudou foi o nosso olhar sobre elas.
A reabertura que ajudou a mudar tudo
Um momento importante dessa retomada aconteceu em 2019, quando o estabelecimento Babae, no bairro de Santo Spirito, voltou a utilizar uma antiga buchetta para servir vinho.

Durante um horário específico, os clientes podiam pedir uma taça e recebê-la diretamente pela pequena janela aberta para a rua.
A experiência chamou a atenção de moradores, turistas e veículos internacionais. Naquele momento, a buchetta do Babae era apresentada como a única janela histórica novamente em funcionamento na cidade.
A tradição deixava de ser apenas um detalhe arquitetônico para voltar a ser uma experiência.
E experiências rendem fotos, vídeos e compartilhamentos.
A pandemia de 2020 e o sucesso internacional
A verdadeira explosão de popularidade aconteceu durante a pandemia de Covid-19.
Em 2020, alguns estabelecimentos florentinos passaram a utilizar pequenas janelas para entregar vinho, café, sorvete e outros produtos aos clientes, reduzindo o contato direto.
A comparação com o uso das buchette durante as antigas epidemias era inevitável: uma solução histórica de Florença parecia ter voltado a ser útil diante de um problema contemporâneo.
A história ganhou espaço em jornais e revistas de diversos países. As imagens das pequenas portas se abrindo para entregar taças circularam intensamente nas redes sociais.
Foi uma narrativa perfeita para aquele momento: uma cidade italiana recuperando uma tradição de séculos para enfrentar uma nova pandemia.
Depois disso, as buchette nunca mais voltaram ao anonimato.
Das fachadas esquecidas às filas para tirar fotos
Atualmente, procurar as buchette del vino se tornou uma atividade turística em Florença.
Há quem faça verdadeiras caças ao tesouro pelo centro histórico, tentando identificar as pequenas aberturas nas fachadas dos palácios. Outras pessoas preferem visitar diretamente os poucos locais que utilizam uma janela para servir vinho, bebidas ou alimentos.
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As redes sociais tiveram papel decisivo nessa transformação.
A cena é visualmente perfeita: uma parede antiga, uma pequena porta de madeira e uma mão surgindo do interior do edifício para entregar uma taça.
É uma experiência curta, fácil de filmar e imediatamente reconhecível como “típica de Florença”. Abaixo um vídeo de Camila Bonatelli que você encontra no Instagram:
Na prática, muita gente atualmente conhece as buchette primeiro por um vídeo nas redes sociais e somente depois descobre sua história.
Nem toda buchetta histórica está em funcionamento
Um detalhe importante é que a grande maioria das buchette antigas continua fechada.
Muitas ficam em residências particulares ou em edifícios onde não existe autorização para realizar vendas diretamente pela janela.
Já em 2020, quando a reabertura do Babae começou a ganhar visibilidade, a Associação Buchette del Vino explicava que outras empresas tinham interesse em repetir a experiência, mas que muitas provavelmente precisariam utilizar réplicas, porque grande parte das aberturas originais pertence a imóveis residenciais.
Por isso, é importante diferenciar três situações:
- buchette históricas que continuam visíveis, mas permanecem fechadas;
- buchette históricas reutilizadas por estabelecimentos comerciais;
- janelas modernas ou réplicas inspiradas na tradição florentina.
O fato de um bar servir vinho por uma pequena abertura não significa automaticamente que aquela janela tenha séculos de história.

Tradição preservada ou atração criada para turistas?
As duas coisas podem ser verdadeiras ao mesmo tempo.
A redescoberta das buchette ajudou a proteger um patrimônio que durante décadas permaneceu praticamente ignorado. O trabalho de pesquisa e catalogação permitiu contar melhor uma parte muito particular da história econômica e social de Florença.
Ao mesmo tempo, a forma como algumas janelas são promovidas hoje tem todas as características do turismo dos tempos de Instagram.
Há filas para conseguir uma taça, pessoas esperando o momento certo para gravar e estabelecimentos que aproveitam a popularidade da experiência para atrair clientes.

Isso não torna a tradição falsa.
Significa apenas que um elemento histórico recebeu uma nova função: antes servia para vender vinho aos moradores; hoje também serve para vender uma imagem de Florença aos visitantes.
As buchette del vino sempre estiveram ali
Para quem conheceu Florença antes da redescoberta atual, a sensação pode ser estranha. Parece que uma nova atração surgiu de repente e passou a ser apresentada como uma tradição que todos deveriam conhecer.
Mas as buchette não são uma invenção recente.
Elas estavam nas fachadas quando caminhávamos por Florença em 2005. Estavam fechadas, discretas e misturadas à arquitetura da cidade. O que não existia ainda era a placa explicativa, o mapa no celular, a taça saindo pela janela e a fila de pessoas gravando tudo.
As buchette del vino dos tempos de Instagram são, portanto, uma combinação muito contemporânea: uma tradição verdadeira, uma cuidadosa recuperação histórica e uma experiência turística perfeitamente adaptada às redes sociais.
E talvez seja justamente essa mistura que explique por que, depois de permanecerem praticamente invisíveis durante décadas, hoje parece impossível visitar Florença sem ouvir falar delas.
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