“Para Roma com Amor”, que estreia no Brasil no dia 29 de junho, é uma declaração de amor à cidade eterna. Confira detalhes dos bastidores das filmagens.

Roberto Benigni e os paparazzi – crédito foto: Vitaliano&Napolitano

A julgar pelas declarações de atores e figurantes que participaram das filmagens do último filme de Woody Allen, uma comédia em quatro episódios ambientada em Roma intitulada “Para Roma com Amor”, o diretor americano promoveu uma verdadeira ode à “cidade mais romântica do mundo”, como ele mesmo definiu, divertindo-se a filmar nos mais clássicos pontos turísticos romanos, do Coliseu à Via Veneto, da Fontana di Trevi ao Campo dei Fiori, da Piazza Venezia ao Teatro Argentina, passando pelo americaníssimo bairro de Trastevere e entrando inclusive nos estúdios de um telejornal da RAI, com um elenco de peso que inclui nomes como Penélope Cruz, Alec Baldwin, Jesse Eisenberg, Ellen Page, Judy Davis e ainda nomes fortes do cinema italiano, como o galã Riccardo Scamarcio, Antonio Albanese, Ornella Muti e a jovem revelação Alessandra Mastronardi.

Penélope Cruz, a musa de Woody Allen em cena de “Para Roma com Amor” – foto: divulgação

Concertos de jazz improvisados ainda na fase de pré-produção, a jovem e bela esposa Sun-Yi, que acompanhava e fotografava cada passo no set, Roberto Benigni que corria pelas ruas de Roma fugindo de “falsos-reais” papparazi, e um guarda de trânsito convocado de improviso para interpretar ele mesmo e que acabou virando o protagonista de um dos episódios do filme. Tudo isso em um ambiente relaxado e de homenagem a esta cidade eternizada por tantos filmes no passado, como o próprio “A Doce Vida” (1960) de Federico Fellini, mas que recentemente, abalada pela crise econômica e moral europeia, andou esquecida dos grandes diretores internacionais.

Pierluigi Marchionne, o guarda de trânsito que foi parar no filme de Woody Allen – foto: divulgação

“Para Roma com Amor” é uma comédia dividida em quatro episódios baseados em “Decameron”, os contos libidinosos escritos por Giovanni Boccaccio no século 14. Woody Allen, que volta a participar como ator dos seus próprios filmes, pela primeira vez desde “Scoop – O Grande Furo” (2006), escolheu como diretor assistente Alberto Mangiante, premiado diretor italiano que participou de quase todas as grandes produções internacionais filmadas na Itália nos últimos anos, de “O Turista” (2010) com Angelina Jolie, passando por “Doze homens e outro segredo” (2004) e “A supremacia Bourne” (2004) até “Sob o sol da Toscana” (2003).

Paparazzi verdadeiros no elenco

A participação especial do ator, diretor e comediante italiano Roberto Benigni, famoso no Brasil pelo premiado “A vida é bela” (1997), atraiu ainda mais a atenção dos incansáveis paparazzi romanos, que muito antes do início das filmagens já vinham perseguindo Woody Allen e sua equipe em busca de informações sobre o novo filme. Benigni, na Itália, é aclamado pelo seu trabalho como cômico televisivo e diretor de teatro, e apenas a ideia de vê-lo junto de Woody Allen já provocava risadas coletivas em todo o país.

Risadas que cresceram ainda mais quando se soube que, para gravar as cenas com Benigni, cujo personagem é um homem que se torna famoso da noite para o dia e passa a ser perseguido incansavelmente por paparazzi da “velha escola romana”, foram chamados os próprios paparazzi, aqueles que vinham perseguindo Woody Allen, para atuarem como figurantes. O resultado foi um grupo de fotógrafos sortudos que passaram da difícil situação de caçarem diariamente Woody Allen pelas ruas de Roma para a comodidade de dentro do set, entre Benigni e o diretor, interpretando eles mesmos, recebendo uma diária de figurantes e, ainda por cima, autorizados oficialmente a fotografarem tudo o que conseguissem.

“Acho que Woody Allen conseguiu obter cenas muito realistas”, afirma Vitaliano Napolitano, 42 anos, que ao lado da sua esposa forma um dos casais mais tradicionais do mundo dos paparazzi em Roma, com mais de 20 anos de experiência. “A nossa violência contra Benigni era real, inclusive nós mesmos estávamos em competição entre nós, porque podíamos fazer fotos reais no set”, explica o experiente fotógrafo de celebridades.

Roberto Benigni foge dos paparazzi  em cena do filme – foto: divulgação

Nos sete dias de filmagens dos quais participaram, quando percorreram praticamente todos os pontos turísticos de Roma correndo literalmente atrás de Benigni, os paparazzi figurantes não apenas suaram muito a camisa, mas também se divertiram com o ambiente tranqüilo e relaxado do set de Woody Allen. As cenas eram praticamente iguais, com o personagem de Benigni que tentava deixar algum lugar público, como um restaurante ou uma barbearia, e acabava sendo perseguido pelos paparazzi. “Ele corria como uma lebre, bem alto e magro, acabou com a gente”, conta a fotógrafa Letizia Giambalvo, esposa de Napolitano, lembrando a cena mais divertida, filmada na piazza Santa Maria em Trastevere, quando, depois de correr muito, Benigni é “salvo” por uma limusine misteriosa. “Benigni é muito ágil, muda de direção, corre para cima e para baixo, super veloz, e nós estávamos com as nossas bolsas de trabalho com equipamentos pesados, tudo era real, até mesmo nossas roupas”, detalha Napolitano.

A participação dos figurantes-reais confundiu muita gente que assistia as filmagens, como o proprietário de uma banca de revistas em Trastevere, Elio Ferdinando, que conhece muitos paparazzi reais e ficou confuso ao vê-los dentro do set. Mas confirmou o que os fotógrafos contam, “Benigni corria muito, daquele jeito dele”. No ambiente relaxado do set, entre uma cena e outra, os fotógrafos brincavam sobre a velocidade com que corria Benigni, e o ator respondia irônico: “Aprendi com os paparazzi!”. Enquanto Woody Allen, segundo Letizia, pedia que os fotógrafos andassem mais devagar e ficassem menos agitados. “Eu acho que o Woody não se deu conta que Roma é um pouco assim, nervosa, agitada”, conta, lembrando que um dos colegas se machucou durante uma das “perseguições” e todos começaram a rir, pois são acostumados com estas situações.

A presença marcante e o comportamento destes paparazzi nas cenas com Benigni traz a lembrança dos paparazzi históricos dos anos 60, os quais inspiraram Federico Fellini no filme “A doce vida”. Uma das cenas de Benigni fugindo dos fotógrafos foi feita na famosa Via Veneto, imortalizada no filme de Fellini, confirmando as suspeitas sobre as influências de Woody Allen. Napolitano e Letizia, acostumados a perseguir famosos que desembarcam em Roma, admitem que existe em Roma uma forte tradição de fotógrafos de celebridades. “Os jornais daqui exigem muita qualidade para este tipo de serviço e nós crescemos junto aos grandes paparazzi dos anos 60, como Tazio Secchiaroli, que inspirou Fellini, e eles nos transmitiram esta mentalidade de que não existe outra possibilidade que não seja voltar para casa com uma foto”, explica Napolitano.

Woody Allen com os paparazzi Letizia e Napolitano – crédito foto: Vitaliano&Napolitano

O casal de fotógrafos emocionou Woody Allen ao final da filmagens, quando o presentearam com dois pôsteres em P&B de fotos que fizeram do diretor em 1995 no aeroporto de Roma, uma delas ao lado da esposa. “Há muito tempo não se filmava uma grande produção internacional em Roma”, disse Letizia, visivelmente emocionada e com a esperança “que a tela grande nos traga de volta alguma coisa de Roma, já que este não é um bom momento para a cidade”.

O protagonismo (sur)real dos figurantes

Em uma certa manhã entre os meses de maio e junho de 2011, quando ainda definia os locais das filmagens do seu filme em Roma, Woody Allen passava de carro pela tumultuada e histórica Piazza Venezia, e ficou intrigado com o trabalho de um dos guardas de trânsito, que, do alto de uma plataforma elevada, coordenava com extrema tranqüilidade um dos pontos de tráfego mais caóticos da cidade. Mais tarde, aquele jovem policial, que iria definir como “uma espécie de diretor de orquestra do trânsito”, teve sua vida transformada. Pierluigi Marchionne, hoje extremamente invejado pelos seus colegas, foi chamado por Woody Allen a participar como figurante de uma cena em que deveria, simplesmente, fazer o seu trabalho. “Ele me chamou e me disse que tinha ficado impressionado com aquela cena que tinha visto e gostaria que eu o ajudasse no seu filme. Como eu poderia dizer não?”, explica Marchionne, que no passado teve breves participações em teatros amadores. Ao participar de uma pré-seleção de atores, ouvia brincadeiras do tipo “Woody Allen mudou a trama por sua causa”. Mais tarde, Marchionne entendeu que Woody Allen pensava em uma breve cena na Piazza Venezia, mas, ao ver em atuação aquele “diretor de orquestra”, imaginou imediatamente uma cena maior, que, ao longo do trabalho de filmagens, cresceu ainda mais, a ponto de Marchionne, com um inglês fluente, um sotaque italiano na medida e uma voz musical, ter se tornado o narrador do episódio do qual participa, que inclui também Penélope Cruz e Jesse Eisenberg.

“Esta plataforma onde ele me viu trabalhar é a única que permanece na Itália, uma espécie de monumento, já que poderia ter sido substituída por semáforos, mas preferiu-se manter a tradição”, explica Marchionne, que faz parte de um grupo de elite dos guardas de trânsito de Roma, que possui posto fixo sobre a plataforma da Piazza Venezia.

“Ele ficou impressionado comigo, não esperava tanto de um simples policial, dizia que a minha voz era muito simpática e divertida e que eu era muito melhor de muitos atores profissionais”, conta, orgulhoso, o romano Marchionne, que morou alguns anos nos Estados Unidos antes de assumir seu posto como guarda de trânsito. “Woody Allen dentro do set é muito concentrado, é um verdadeiro diretor que decide e fala com todos. Mas, fora do set, era muito gentil e simpático, me chamava de longe para me contar de como tinha ficado a cena”, diverte-se Marchionne, ao lembrar.

O roteiro de Woody por Roma

Com a cidade esvaziada no mês de agosto de 2011, tomada pelos habituais turistas, a presença de Woody Allen em Roma se tornou uma atração à parte. A considerar a verdadeira maratona que ele e sua equipe realizaram no período de cerca de 45 dias de filmagens, provavelmente quase nenhum ponto turístico ficou de fora da câmera afiada de Allen. Para além das cenas extrovertidas de Benigni correndo de fotógrafos enlouquecidos pelas ruas de Trastevere e do centro histórico, foram realizadas cenas noturnas dentro do Coliseu, o teatro Argentina foi tomado por mais de 500 figurantes em trajes de gala, o museu Ara Pacis foi cenário para um desfile de lingerie devidamente apreciado pelo personagem de Benigni, os esplêndidos jardins e fontes de Villa d’Est, uma patrimônio da Unesco a 30 km do centro de Roma, serviram de moldura para uma cena com a canadense Alison Pill e até um simulador de vôo da Alitalia usado para treinamento de comissários se tornou set provisório da equipe de “Para Roma com Amor”. E como se não fosse suficiente, Allen ainda encontrou tempo para participar como músico de sessões de jazz improvisadas em restaurantes luxuosos de Roma e inaugurar, ao lado da governadora da região do Lazio, uma mostra de cinema ao ar livre para os pacientes de um hospital público da cidade.


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6 COMENTÁRIOS

  1. Nossa, que matéria maravilhosa! Muito bem escrita. Me vi novamente pelas ruas de Roma… será um prazer assistir esse filme, matar saudades e ter um ponto de vista de Allen e Benigni sobre essa cidade com tanta história. Abç.

  2. Obrigado pelo aviso da data exata de lançamento Barbara e pela ótima matéria que só aumenta a ansiedade de ver o filme! FF

  3. Desculpe. Parabéns Aline Buaes pela ótima e completa matéria que sí aumenta a ansiedade de ver o filme! FF

  4. Obrigada pessoal, e principalmente a Bárbara, até o mapa do Google com o roteiro ela fez!
    Abraços e vamos ao cinema neste final de semana!
    aline

  5. amei o filme, pena que só li sua excelente matéria depois.Conheço bem Roma e a adoro.Woody de fato fez ” una cativeria” mas muito saborosa.Grata pelo seu trabalho.

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