Florença, 03/09/2026 – Se você está de olho em passagens para viajar entre o Brasil e a Itália nos próximos meses, vale prestar atenção numa notícia que não fala de destino, fala de dinheiro.

Nas últimas semanas, uma sequência de balanços e anúncios de companhias aéreas mostrou o mesmo problema se repetindo: o combustível ficou tão caro que está corroendo o lucro de quem voa, mesmo com os aviões mais cheios do que no ano passado.

A pergunta natural é: será que vamos todos viajar menos? Olhando os números com calma, a resposta é mais específica do que isso. Não é que as pessoas perderam a vontade de viajar: é que as contas das companhias aéreas não estão fechando, e são elas que estão reagindo, cortando voos de inverno e sinalizando preços mais altos.

O aviso que deu início a tudo: a Ryanair corta o inverno

No início de setembro, a Ryanair anunciou que transportou 22,2 milhões de passageiros em agosto, 6% a mais que no mesmo mês do ano passado. Ao mesmo tempo, cortou a própria meta de passageiros para o ano fiscal que termina em abril de 2027, de 216 milhões para 214 milhões.

O motivo declarado pela empresa não foi falta de procura. Foi o preço do petróleo. Segundo a reportagem da GuidaViaggi, o querosene de aviação está cotado perto de 140 dólares o barril, bem acima do que a Ryanair já garantiu para si mesma. A empresa já protegeu (fez “hedge”, uma espécie de seguro de preço, comprando antecipadamente parte do combustível que vai usar) 80% do que precisa para o ano fiscal de 2027, a cerca de 67 dólares o barril.

O corte de voos foi concentrado justamente nos meses de novembro a março, quando a empresa tradicionalmente já opera no prejuízo. A ideia é evitar comprar, no mercado, o combustível que falta a esse preço mais alto. A companhia estima que a medida evite entre 70 e 100 milhões de euros de perdas neste inverno.

A Ryanair foi além e avisou que companhias concorrentes com menos proteção de preço podem ter dificuldade para atravessar o inverno, e que as tarifas de voos de curta distância na Europa devem subir de forma relevante no verão de 2027, caso o petróleo continue caro.

TAP: mais passageiros e mais receita, mas prejuízo maior

A TAP é a ponte mais usada por quem viaja entre o Brasil e a Itália sem voo direto, com conexão em Lisboa. E o balanço do primeiro semestre de 2026 da companhia portuguesa é o retrato mais claro de que o problema não é falta de vontade de viajar.

Segundo os resultados divulgados pela empresa e reproduzidos pelo Kiosque da Aviação e pelo Pontos Pra Voar, a TAP transportou 8,2 milhões de passageiros no semestre, 4,2% a mais que em 2025, e fechou os aviões mais cheios do que nunca, com taxa de ocupação de 85,4% (3,4 pontos percentuais acima do ano anterior). A receita operacional bateu recorde: 2,04 bilhões de euros, alta de 4,3%.

Mesmo assim, a companhia fechou o semestre com prejuízo de 99,2 milhões de euros, cerca de 40% pior que no mesmo período de 2025. O motivo: o custo com combustível subiu 18,7% no semestre, para 566,4 milhões de euros, e só no segundo trimestre a alta foi de 52,3%, para 370,2 milhões de euros. Ou seja, cresceu bem mais rápido do que a receita.

“O desempenho do primeiro semestre demonstra a robustez do modelo de negócio da TAP e a solidez da procura em toda a nossa rede.” Luís Rodrigues, CEO da TAP

É basicamente a mesma história da Ryanair, só que do lado de quem não cortou capacidade: mais gente voando, avião mais cheio, receita recorde, e ainda assim no vermelho, porque o combustível comeu a diferença.

Na Itália, quem se protegeu do preço do petróleo, e quem não

Nem toda companhia está no mesmo barco. A diferença entre cortar voos ou não parece estar, sobretudo, em quem fez hedge de combustível com antecedência e quem não fez, ou não fez o suficiente.

A ITA Airways, companhia aérea italiana que opera o voo direto entre São Paulo e Roma, anunciou não ter planos de cortar voos. Pelo menos era essa a posição em junho de 2026, quando o CEO da ITA Airways, Joerg Eberhart, disse na Assembleia Geral da IATA, no Rio de Janeiro, em junho de 2026:

“até dezembro estamos 80% protegidos contra o aumento do preço do combustível. O impacto do combustível recai só sobre os 20% restantes, sem proteção, o que pode ser compensado com um reajuste de tarifas entre 5% e 10%”. Sobre o inverno: “ainda não tomamos nenhuma decisão, porque estamos cobertos até o fim do ano. São as outras companhias que precisam agir agora. Se a situação não melhorar, com preços em alta e o Estreito de Ormuz ainda fechado, pode ser que a gente tenha que considerar uma redução de capacidade a partir de janeiro de 2027”. – reportou o jornal Il Sole 24 Ore

A Ryanair, que também voa muito dentro da Itália e é frequentemente usada em conexões, é a exceção nesse cenário: mesmo hedgeada em 80% para o ano fiscal de 2027, decidiu cortar capacidade de qualquer forma, por avaliar que o preço atual do combustível não hedgeado tornaria o inverno ainda mais deficitário do que o de costume.

E a LATAM, que voa todo dia entre São Paulo e Roma?

A LATAM opera voo diário entre São Paulo e Roma desde junho de 2026, além de rota para Milão. Em junho, a companhia cortou cerca de 3% dos voos dentro do Brasil por causa da alta do querosene, com um custo extra que a própria empresa estimou em até 700 milhões de dólares só no segundo trimestre. Julho ainda estava em avaliação. O CEO Roberto Alvo já avisou que novos cortes no setor aéreo são possíveis se o combustível continuar caro até 2027.

Vale uma ressalva importante aqui: até o momento, não há corte confirmado especificamente nas rotas entre o Brasil e a Itália: pelo contrário, foi justamente em 2026 que a LATAM tornou o voo São Paulo-Roma diário e abriu novas rotas europeias, para Amsterdã e Bruxelas. O aviso do CEO é sobre o cenário do setor como um todo, não uma medida já anunciada para essas rotas.

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Por trás de tudo isso: por que o combustível disparou

O gatilho por trás da alta generalizada é o conflito no Oriente Médio, que afetou o tráfego aéreo na região (queda de 16%) e a capacidade aérea global (queda de 6% em março), além de derrubar a ocupação hoteleira na região de 75% para 48% entre janeiro e março, segundo dados reunidos pelo Hotel News Resource.

O reflexo chegou ao preço do combustível de avião em todo o mundo. A IATA, associação internacional das companhias aéreas, projeta que o jet fuel custe em média 152 dólares o barril em 2026, quase 70% a mais que os 90 dólares de 2025. Isso fez o combustível passar a representar 31,4% dos custos operacionais do setor no mundo todo, contra 25,4% no ano anterior, e derrubou pela metade o lucro esperado do setor: de 45 bilhões de dólares em 2025 para 23 bilhões em 2026.

O que isso muda pra quem vai viajar entre o Brasil e a Itália

Juntando os pontos: a demanda por viagens não caiu, os próprios números de TAP, ITA Airways e LATAM mostram aviões mais cheios e mais passageiros do que no ano passado. O que mudou foi a conta do combustível, que cresceu mais rápido que a receita das companhias. Na prática, isso tende a aparecer de duas formas para quem viaja: menos assentos disponíveis em algumas rotas no inverno (caso da Ryanair) e tarifas mais altas de um modo geral (caso da ITA Airways, e possivelmente de outras).

  • Quem depende de conexões dentro da Itália pela Ryanair pode encontrar menos opções de horário entre novembro e março. Vale checar a disponibilidade com mais antecedência do que de costume.
  • ITA Airways, easyJet e Wizz Air, por ora, não sinalizaram corte de voos, mas a própria ITA já avisou que os preços devem subir entre 5% e 10% em 2026.
  • A conexão via TAP (Lisboa) segue operando normalmente, sem corte de capacidade anunciado, apesar do resultado financeiro pior.
  • O voo direto São Paulo-Roma da LATAM segue diário, sem sinal de corte, mas o alerta do CEO da companhia sobre o setor em geral é um motivo a mais para não deixar a compra da passagem para a última hora, esperando por uma promoção que pode não vir.
Vamos viajar menos nos próximos meses? A vontade não passou, mas as condições do mundo estão alterando o setor
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Resumindo: não é que ninguém mais quer viajar. É que voar ficou mais caro para quem opera o avião, e isso está começando a aparecer no que o passageiro vê: menos horários em algumas rotas, tarifas um pouco mais salgadas em outras. Vale acompanhar os preços com atenção nas próximas semanas, principalmente se a viagem é para o inverno europeu.

Agora me conta nos comentários: você está alterando os seus planos de viagem ou vai viajar mesmo assim?

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