Fico imaginando como seria um Rio de Janeiro onde todas as pessoas tem uma qualidade de vida digna. Penso nos morros cariocas com seus predinhos de poucos andares onde moram famílias de trabalhadores, que podem caminhar tranquilos pelas ruas e apreciar o cenário maravilhoso do Rio de Janeiro.

Já pensou, as casas do Vidigal, de frente para o mar, seriam um privilégio para os olhos dos seus moradores. Lógico que as construções das casas no lugar das antigas favelas seguiriam as normas de segurança, respeitando o ecossistema e a natureza locais.

Imagino que não é que as pessoas pobres desapareceriam: elas simplesmente melhorariam a qualidade de vida devido a um trabalho que pague um salário justo para uma família viver, ao ensino público de qualidade e a uma conscientização da população de modo geral.

Acredito que seria possível um Rio onde a gente se sentisse caminhando pelo Leblon em qualquer uma das regiões da cidade. Mudaria um pouco a natureza ao redor, mas a essência poderia ser a mesma. Aqui em Florença, por exemplo, é difícil diferenciar o que é uma zona nobre de uma não nobre. Em geral elas tem a mesma infra-estrutura e serviços, prédios com fachadas semelhantes. Não é perfeita a vida aqui, mas está longe de ser essa guerrilha brasileira.

Fico pensando quanto dinheiro rola para oficialmente “colocar as coisas em ordem” no Rio, que é dinheiro mais do que suficiente para realmente colocar as coisas em ordem, mas que acaba sendo desviado para outras coisas.

Fico pensando em como seria um mundo onde as pessoas tivessem consciência do seu papel na sociedade e de como vários pequenos atos se transformam em um modo de viver coletivo.

O filme

Finalmente tive a oportunidade de assistir ao filme Tropa de Elite neste sábado de manhã. Em menos de 5 minutos do início eu já me sentia com uma bola na garganta, um mixto de vergonha e tristeza juntos. Fico pensando que a história, que poderia ter sido criada da mente de qualquer autor fantasioso, representa uma realidade brasileira. Uma realidade que eu não quero para a minha família e os meus filhos.

Não é só o Rio de Janeiro, tantos outros lugares estão tão degradados que fico pensando se é possível piorar. Nos últimos 2 meses, dois grupos de conhecidos diversos sofreram tentativa de assalto na paulicéia, que poderia ter terminado da pior forma possível, mas dessa vez correu tudo bem.

As pessoas sentem orgulho ao ler uma matéria da Veja que diz que o Brasil produz 164 milionários por dia! Nas entrelinhas está escrito: o Brasil está ficando mais desigual. E a revista celebra essa desigualdade como se fosse sinônimo de inteligência…

Colombia

Lembro de um tempo em que uma amiga foi viajar para a Colombia, para suas praias maravilhosas do caribe, e teria que passar por Bogota durante o periodo negro da cidade. Ela contou que conversou com algumas pessoas do local e perguntou: mas vocês não tem medo de viver aqui? E elas responderam que tudo que acontecia era “normal”…

Tiros na hora de dormir

Do mesmo modo, há mais de 10 anos, eu conheci uma garota que morava em uma favela paulistana e estávamos falando sobre a vida. Não me lembro mais de detalhes, só que em um dado momento da conversa ela mencionou com tranquilidade que sempre a noite escutava troca de tiros e perguntou se não era assim também no meu bairro. Talvez hoje seja…

O normal

Eu não sei o que é normal, mas honestamente, deve ser algo diferente de ter carros blindados, dirigir a noite com vidros fechados e passando em sinal/farol vermelho para não ser assaltado. Também não é normal um chefe de família trabalhar com honestidade e ser tido como estúpido por ganhar um salário desonesto. Não é normal viver em um país onde se pagam tantos impostos sem ter um mínimo de direitos assegurados. Que azarado quem nasce no Brasil! Prais bonitas existem em tantos outros lugares do mundo. E uma bela geografia e paisagens também.

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Barbara Bueno - brasilnaitalia
Barbara Bueno é uma jornalista brasileira que mora em Florença desde março de 2005. Foi para a Toscana em busca das suas origens italianas. Em janeiro de 2007 criou o blog BRASIL NA ITALIA. Já trabalhou como content manager para a Regione Toscana, obteve habilitação como assistente turística e foi proprietária de agência de viagem na Italia (até chegar a pandemia...). Hoje se interessa por criptomoedas e voltou a fazer o que mais gosta: buscar novidades, visitar lugares interessantes e escrever! Se você tem uma dúvida sobre a Italia visite a seção Dúvidas sobre a Italia.

2 COMENTÁRIOS

  1. José Krug,

    Interessante encontrar o seu comentário aqui praticamente três anos depois que escrevi este texto.

    Infelizmente nesses três anos, embora a economia brasileira tenha melhorado, o RIo de Janeiro acaba de passar por um dos momentos mais difíceis da última história. Momentos que não chegaram a interferir no quotidiano da zona sul carioca, mas de qualquer modo estamos falando da cidade mais turística do Brasil e inserida na zona mais rica do país.

    Aqui na Italia as coisas pioraram muito nesses últimos 3 anos. Independente de camorra ou não camorra. Crise é a palavra que descreve melhor o momento.
    Felizmente ainda é raro escutar casos de assaltos a mão armada. De vez enquanto rolam alguns roubos, em uma cidade como Florença, mas é a carteira ou bolsa de um distraído.

    Lógico, nenhum lugar é 100% seguro porque o homem é tendencialmente violento. Mesmo quando tem tudo, se entedia, procura adrenalina, novas emoções, droga.

    Enfim, e a gente vai vivendo e os anos vão passando. Quem sabe um dia descobriremos o por quê, né?

    abs

    Barbara

  2. Como seria a vida em um pais sem a Camorra?Sem as mafias na Italia?
    Aonde todas pessoas ganhem mais de 500 euros mensais?
    Aonde nao existe lixo nas ruas?

    Ande pelas periferias do pais aonde vc mora antes de falar besteira.

    José Krug.

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