Terça-feira é dia da coluna dos estudantes brasileiros na Itália. Vicky Sanches preparou um texto especial para BRASIL NA ITALIA, que temos o prazer de publicar na íntegra. Cada vida, uma história, e cada destino uma sorte diversa. Apertem os cintos e embarquem com Vicky:

Bem, a minha historia nao eh tipica mas pode ser que alguma coisa sirva para ilustrar um pouco a dinamica da Italia.

Tinha 32 anos quando fui para a Italia, apos viver alguns anos em Londres. Nasci e vivi em Niteroi ateh meus 28 anos e lah estudei, fiz faculdade federal, pos, aulinha de ingles, frances, espanhol, bale, toda aquela rotina de tipica classe media. Em 2004 eu fui para Treviso, no Veneto, fazer a legalizacao da minha cidadania italiana pois queria continuar morando na Europa.

Chegando na Italia eu queria trabalhar, e descendentes em processo de cidadania tem permissao de trabalho fornecida pela Questura de Treviso – isso varia de acordo com a provincia onde voce mora. Mas nao consegui nada. Sempre procurando em tudo quanto era loja que via na frente, hotel, sorveteria, agencia de emprego, revista e jornal. Ateh que eu achei um anuncio da Comunidade Europeia oferecendo um curso com bolsa de estudo na Escola Enologica de Conegliano Veneto. Era uma pos-lato sensu para quem estava sem trabalho. Eu nao tinha a cidadania ainda e meu italiano era ruinzinho, mesmo assim submeti meu CV em forma de carta – como pedia o anuncio – e fui convocada para prova e entrevista. Os pre-requisitos eram experiencia previa relevante ao curso e diploma de curso superior.

Armada de toda minha cara de pau eu fui, fiz a prova – que eram umas perguntinhas em multipla escolha – e tudo o que eu tive que submeter foi uma declaracao dizendo que eu tinha curso superior completo e o meu passaporte, inclui meu permesso di soggiorno por conta propria. Fiz entrevista, onde me perguntaram se eu achava que meu italiano me atrapalharia a entender o curso e eu respondi que nao. Que no comeco minha escrita seria ruim, mas que melhoraria logo porque eu aprendo muito rapido. Compraram a minha audacia e fui admitida.

Nunca tive problemas para entender nada. O problema eh que a bolsa de 400Euros que eu estava de olho soh eh paga ao final do curso SE voce concluir o curso. Fazem isso para evitar evasao jah que tudo financiado pelo Fundo Social Europeu. Recebi minha grana 6 meses depois de terminado o curso.

Enquanto voce estuda fica proibido trabalhar por ganhar bolsa (??? Eh verdade! Parece piada de portugues, ne?), entao eu dava aulas particulares de ingles no final de semana para poder ter alguma graninha. Alem da bolsa, recebia Vales-Refeicao de 10Euros por dia de aula. E se voce falta aula na semana seguinte descontam o vale do dia que voce faltou. O curso eh tempo integral durante 6 meses, dos quais 2 meses de estagio obrigatorio conseguido pela propria escola. As empresas querem os estagiarios para fazer os trabalhos que ninguem quer no escritorio, entao nao espere ter experiencia na sua area de estudo porque isso nao vai acontecer.

Mas entra no curriculo. Eu ateh que nao fiquei tao mal, passei boa parte do meu estagio fazendo traducao de documentos do italiano para o ingles. E tirando fotocopia, arquivando, arrumando almoxarifado, atendendo telefone, enviando mala-direta… Ah, e o estagio eh nao remunerado, voce tem que arcar com todas as despesas e a escola nao te dah Vale-Refeicao pelo seu periodo de estagio.

O curso era Marketing e Gestao da Qualidade para a Empresa Enologica, o que na verdade envolvia todo o mundo relacionado a producao de vinho e visava a criacao de mao-de-obra qualificada para trabalhar nas vinicolas da regiao, que em sua grande maioria sao pequenas empresas familiares onde o pessoal tem pouquissima formacao teorica e uma visao muito tosca de business.

As aulas eram em sua maioria expositivas. Nao vi nenhuma diferenca dos metodos de ensino do Brasil. Textos base, discussoes em sala de aula, as vezes provas orais e na maioria, provas discursivas. Passei com louvor, jah que jah dominava parte do assunto do curso e tambem era a unica pessoa com experiencia pratica em gestao da qualidade, e por isso ainda ajudei meus colegas. A entrevista final, diante de uma banca, foi muito emocionante porque, mesmo com todo preconceito e humilhacao que sofri enquanto morei na Italia, ali era um lugar onde eu estava sendo analisada pela minha capacidade intelectual, e em italiano, e fui muito elogiada. Me senti vingada. Depois de me aprovarem o diretor do curso contou para a banca que 6 meses antes eu cheguei lah para a entrevista de selecao sem saber falar direito e conclui o curso como uma das melhores alunas da classe.

A minha intencao era continuar na Italia e eu queria trabalhar com a qualificacao que havia recebido mas aquelas empresas familiares todas se recusavam a ter uma brasileira trabalhando com eles por dois motivos: por ser mulher e por ser brasileira. Ouvi ateh: “Aqui nao tem palco para voce sambar, isso eh uma fabrica seria.” Entao, espere ouvir baixaria de possiveis empregadores porque a educacao nao eh o forte deles.

Um conselho: na Italia se voce nao estiver em Roma ou Milao o lugar onde voce estah eh pequeno. Independente de quantos habitantes existem lah. E nao importa o que dizem sobre sul pobre e norte rico, a Italia estah em crise e nao tem emprego no norte. Se voce eh homem terah mais oportunidades que sendo mulher, e se voce eh mulher jovem, solteira e bonita, desista. Nem vestida como uma freira voce vai escapar de ouvir gente te chamando de prostituta soh por ser solteira e brasileira.

Eu fui para a Italia achando que minha vida seria lah e que eu seria bem recebida por ser filha daquela terra, por querer prestar uma homenagem aos meus antepassados, etc. Por ter grandes expectativas eu me decepcionei muito. Eu conto varias coisas sobre minha vida na Italia no meu blog http://www.vickymundoafora.blogspot.com com a tag Italia em Tres Atos – A Opera . Tenho alguns amigos italianos, mas confio desconfiando sempre depois de tudo o que passei. Essa foi a minha experiencia, sei que nem todo mundo se ferra como eu, mas se voce estah pensando em se mudar para a Italia, vah com a cabeca bem aberta e sem expectativas. Assim doi menos se as coisas derem errado.

Vicky Sanches

Se você tiver interesse em contar a sua história escreva para brasilnaitalia@gmail.com ! Você pode ajudar outros brasileiros que desejam estudar na Itália a realizar um sonho.

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5 COMENTÁRIOS

  1. oi, meu nome é Thaís tenho 22 anos em junho/09 termino a faculdade de arquitetura.
    Estou querendo fazer pós graduação na Itália (especialização ou mestrado).
    Estou totalmente perdida, não sei onde encontrar informações certas sobre a prova de bolsa, ou mesmo se tem como entrar sem prova de bolsa.
    por favor, quem souber de alguma coisa entre em contato comigo!!! meu msn: bobsponjatr@hotmail.com
    obrigada

  2. @Thais,

    As provas provavelmente variam dependendo de onde você for fazer a sua pos graduação.

    O primeiro passo é escolher onde você quer estudar ou qual curso exatamente quer fazer. Para começar, dê uma olhada neste artigo:
    http://www.brasilnaitalia.net/2007/11/perguntas-perguntas-perguntas.html

    Recomendo só depois dessa primeira escolha de curso e faculdade ir atrás das informações sobre as provas diretamente na escola escolhida.

    Aliás, Firenze é uma cidade clássica pelas faculdades de arquitetura. Depois volta aqui e conta para a gente o que decidiu. abs,

  3. Sobre a historia da Vicky, achei um absurdo quando disseram a ela que a tal empresa nao era lugar para sambar…

  4. É um bom artigo, pois é bem informativo e real. Entretanto, seria mais agradável de se ler se houvesse todas as pontuações, acentos e grafias corretas de palavras, não no estilo “MSN”, que é desagradável de ler.

  5. Anonimo, o estilo “MSN” é mais corretamente identificado por um teclado de laptop comprado na Inglaterra.

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