Foi em uma das minhas visitas a uma das dezenas de livrarias de Firenze que me deparei com um título que me chamou atenção “Rio de Janeiro”. Opa! Do Ruy Castro. Enlouqueci de vontade de comprar o livro, mas como é contra os meus princípios ler um livro de autor brasileiro em língua que não seja a original, não comprei.

Adoro o Rio de Janeiro, é uma das minhas cidades favoritas no mundo pela sua beleza, sua atmosfera descontraída e as barraquinhas de suco natural em cada esquina. Passei muitas férias e feriados por lá, tinha uma turma grande misturada de amigos paulistanos com outros cariocas da gema. Para mim, o Rio foi sempre sinônimo de relax e alto astral.

Mas voltamos ao livro, atormentei tanto a família no Brasil que foram procurar o tal e não o encontravam em nenhuma parte. Até que o vendedor de uma das lojas disse: “será que o título no Brasil não é diferente?” Sim, era, se chama “Carnaval no Fogo – crônica de uma cidade excitante demais”.

Depois de meses de expectativa o volume em português chegou nas minhas mãos. Foram meses de espera para um dia de leitura. Devorado! Como aquele prato especial que você passa horas cozinhando para ser apreciado intensamente em rápidos dez minutos.

O Rio de Janeiro de Ruy Castro

Não dá para falar do Rio e do carioca sem falar sobre praia e carnaval. E Ruy toca muito bem no tema:

Uma coleção de clichês assola e mancha a imagem do carioca. Alguns deles são os de que o carioca não trabalha, passa o dia na praia e não pode ver uma esquina ou um botequim sem parar para conversar com alguém que acabou de conhecer e de quem já ficou íntimo. (…)
Primeiro não é verdade que o carioca trabalhe pouco. Ao contrário, o Rio é uma das cidades do Brasil onde mais se trabalha. Talvez seja aquela onde mais se trabalha, e não ria. Segundo números do IBGE, o carioca trabalha 40h47min por semana, uma média invejável em qualquer grande cidade do mundo – confira com a
da sua cidade. Ele apenas não tem culpa se lhe sobram 127h13min por semana para não trabalhar. E esse período, que os cidadãos de outros burgos dedicam
a dormir ou ver TV, o carioca aproveita para fazer coisas muito melhores, como
ir à praia, dar um pulo ao botequim, jogar conversa fora, praticar algum esporte
ou andar à toa na rua.
(…) Ah, as praias. Os de fora pensam que o carioca não sai delas. E, realmente, a qualquer hora qu se passe por Copacabana ou Ipanema, mesmo às três da tarde de uma terça-feira, as areias estão cheias de gente. Mas quem garante que sejam cariocas? Alguns até podem ser – estudantes em férias, velhos aposentados, adultos desempregados e vadis crônicos. Mas o mais provável é que uma boa parte seja de turistas, internacionais ou domésticos, os quais têm o direito legal de se esticar ao sol em qualquer dia.

Este é um livro que fala das raízes do espírito carioca, Ruy Castro inicia com a época do descobrimento do Brasil, passa pelos portugueses, franceses, índios, colonização e atualidade.
Qual é o seu Rio de Janeiro?
Tenho certeza que poderá surgir um leitor carioca indignado, que dirá que não frequenta praia, odeia o carnaval, o calor e prefere ficar fechado no escritório trabalhando com o ar condicionado. Bem, se existir realmente alguém assim (nesse mundo tem louco para tudo), perguntaria: “meu amigo, mas por que razão o senhor ainda está morando no Rio?” rs.
Eu adoraria morar no Rio e sofro de uma paixão descarada pela cidade. Como diz um carioca da gema: “O Rio é super seguro, basta morar no Leblon, trabalhar no Leblon e não sair do Leblon!” Na verdade tem pessoas que moram no Rio há uma vida e nunca sofreram qualquer ato de violência. Mas também tenho memórias duras.
Me lembro dos semáforos às 10 da noite com crianças de 1 metro de altura fazendo malabarismos para angariar trocados. Me lembro das famílias que dormiam tranquilamente em algum pedaço de calçada em Copacabana. Me lembro que meu pai uma vez foi assaltado na Barra, mas tinha saído de casa sem dinheiro e o assaltante ficou bravo com ele. Por sorte não aconteceu nada, mas meu pai que era um piadista voltou para casa dizendo “eu quase pedi um dinheirinho emprestado para o assaltante…” Essa atmosfera bem humorada é também a cara do Rio.
Não me esquecerei dos fins de tarde na frente da praia em um quiosque tomando água de côco fresquinha, de frente para um cenário incrível. Nem dos fogos de artifício maravilhosos, que duravam quase meia hora non stop, em uma noite de ano novo com pé na areia, uma garrafa de champagne na mão e muitos amigos para abraçar e desejar tudo de bom para o ano que começava.

Ah, o Rio… que gostoso ler a obra de Ruy Castro e poder sentir um pouco do gostinho do espírito carioca…

Sobre o post: o tema desse artigo foi proposto pelo blog de Andréa Motta, “Leio o Mundo Assim” que organizou uma blogagem coletiva para o dia 13 de dezembro chamado Coisas do Meu Brasil 2.

18 COMENTÁRIOS

  1. Nós devemos sim dar valor ao lado bom de cada cidade pois, hoje em dia, onde a violência não impera?

    Agora, morar no Rio e não desfrutar dos encatos de suas praias é…. bom, vocÇe já disse tudo, tem louco prá tudo…

    Bom final de semana…

  2. @Ronald
    Sim, eu prefiro lembrar da água de coco na praia ou dos sucos maravilhosos dos quiosques. Ah, que delícia… Deu água na boca!

  3. Eu sou do Rio, e nunca trabalhei tanto em lugar algum como eu trabalhei aqui, e sem remuneracao alguma pelas minhas horas extras em empresas de grande porte. Só para ouvir o desaforo de um milanes querendo dizer que italiano trabalha mais que brasileiro e no Rio ele só encontrava gente indolente. Aqui ó!!!! Nunca encontrei na Itália um que trabalhasse mais do que eu trabalhei na Brahma e em outros lugares – e olha que eu nao era das que faziam mais horas extras pelo simples fato de nao ter carro.

  4. Engraçado é o feito que sempre tem alguem dizendo que outros povos trabalham menos ( veija o caso do sul do Brasil ao respeito do nordestino , que também trabalha pra caramba) …

  5. Molto bene!

    Gostei muito do post!
    As generalizações sempre são atitudes burras e perigosas. Devemos manter distância delas e nunca tentar rotular ninguém. Nem de indolente, nem de preconceituoso, nem de coisa alguma.

    Esta blogagem coletiva sobre o Brasil está excelente! Há muita coisa a aprender sobre a nossa terra e esta é uma ótima oportunidade!

    Sensata Paranóia

  6. Bravissima!! O texto ficou ótimo e fiquei cm vontade de comprar o livro. Muito obrigada por sua participação!

  7. Eu sou carioca e continuo achando que o Rio continua e sempre será MARAVILHOSO E LINDO!
    Parabéns pelo seu belo post…adorei!

  8. morro de vontade de conhecer o rio de janeiro….

    ….o rio que conheço por causa de tom e vinícius…

    o rio boêmio….
    as praias…..

    deve ser lindo!!!

  9. Olá!
    Também participei da blogagem coletiva. Estou visitando outros participantes e isso se tornou uma deliciosa forma de conhecer melhor esse país e outras pessoas.
    Gostei muito do seu post.
    Abraços

  10. Bom, eu sou do Espírito Santo, quase o “interior do Rio”, por ser um estado menor e bem próximo. Antes de vir para a Itália morava de frente para a praia e era daquelas que preferia o escritório com ar condicionado… (rs rs) Entretanto apreciar a vista para o mar e dormir ouvindo o barulho das ondas é algo que realmente não tem preço! Maravilhoso! E claro que não é porque no Brasil se curte a vida, a praia, o sol e o verão (o ano inteiro) se trabalha menos… Dizer que sim seria além de absurdo uma grande injustiça!

  11. Seu post sem imagem foi absurdamente visual para quem vive no Rio ou não. Parabéns.

    Abraço

  12. @Vicky
    E conta aí: funcionários da Brahma tem desconto para comprar bebidas?

    @Celecelestino
    É verdade, a gente sempre acha que trabalha mais do que os outros. Essa história de que o povo do norte trabalha menos surgiu porque em geral durante as férias, quando você vai para o nordeste e pede uma latinha de Sprite em um bar a atendente volta depois de 40 minutos com uma latinha de Coca-Cola… rs!
    Mas falando sério: tenho amigos em algumas cidades como Recife e Salvador e trabalham pra caramba.
    Mas se não fizerem essas pequenas “provocações” o povo não se diverte…

    @Urbano Leonel
    Também fui fuçar no seu site e adorei seu pôr do sol… 🙂

    @ Andréa Motta
    Parabéns para você pela organização de uma blogagem coletiva tão interessante!

    @Serena
    Realmente cada vez que vou para o Rio só consigo suspirar diante de tanta beleza natural. 🙂

    @Joyce
    Também gostei do tema da sua postagem com as fotos de São Paulo. A São Paulo frenética, a mil por hora a qualquer momento do dia (e da noite!).

    @Ivani
    Também fui fuçar no seu site para conhecer o “seu” Brasil… 🙂

    @Planejando
    Que delícia, trabalhar de frente para o mar. Eu ainda quero morar um dia em uma casa em que possa relaxar olhando para o horizonte e a água… Quem sabe o que a vida ainda reserva…

    @Luiz Ramos
    Obrigada pela dica. Vou ficar de olho no seu site também!

    @Vanessa
    Que saudades do Rio… Bom olhar a foto lá no seu site de um dos cartões postais da cidade… 🙂

  13. Sempre acompanho o blog e vi que vc é jornalista. Hj me surgiu uma duvida enquanto traduzia meu curriculo: como é “Assesoria de Imprensa” em italiano? Procurei no google e em dicionarios e nao achei nada…

    Grato se puder dar a resposta, e continue com o blog, sempre muito bom e com otimas dicass.

  14. @Gerson,
    Seja bem vindo e pode participar outras vezes.
    A tradução de Assessoria de Imprensa é Ufficio Stampa e um assessor de imprensa é um addetto stampa. Até a próxima!

  15. Adorei o post e a idéia da postagem coletiva, buscarei ler em outros blogs também…
    Como carioca apaixonada por turismo, doméstico ou internacional, digo de boca cheia: esta é, realmente a cidade maravilhosa. O mundo é cheio de belezas, cada uma de sua forma e especificidade, mas o rio consegue juntar de uma forma estonteante uma diversidade de estéticas tanto naturais quanto humanas.
    Morro na Barra da tijuca e estudo na Urca, ou seja, dirijo praticamente todo o litoral da cidade todos os dias e confirmo que é im-pos-sí-vel se cansar do caminho. Três horas no volante (juntando o tempo de ida e volta) todo santo dia é de enlouquecer qualquer um, uma bela sorte poder fazer este percurso com um cenário de verdes-marrons-e-azuis do nosso litoral.
    Todos deveriam conhecer! Com sorte as olimpíadas de 2016 serão um bom passo neste sentido!
    Beijos

  16. Amei este post! Sou do Rio, morava em frente a praia e fiquei com agua na boca, sem duvidas! Um dia, se Deus quiser, voltarei e espero nao demorar muito:-) Mas confesso que nunca trabalhei tanto no Rio desde a IBM até a Oi, do que em qualquer outro lugar, seja SP ou Itália. Trabalho na Fiat em Torino e qdo saio as 19hs do escritorio já está praticamente vazio…uff. enfim, tudo tem seu lado positivo e negativo.
    Se tivesse lido o post antes, pedia pro meu marido trazer o livro..rss mas ele está voando pra cá neste momento..que pena! bjos a todos

  17. morei 5 anos no Rio, como em todos os lugares hà vantagens e desvantagens, è sò voce potenciar as vantagens e tentar superar as desvantagens. Ter jogo de cintura, enfim. Mas o Leblon è o màximo!

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