Quem pensa em voar entre cidades europeias neste inverno, num bate e volta de Milão a Paris ou numa conexão barata até a Itália, vai encontrar um pouco menos de opção. A easyJet, uma das maiores companhias de baixo custo da Europa, decidiu tirar mais 600 a 700 mil assentos da programação de inverno para gastar menos com combustível.

Ela não está sozinha. Em setembro contamos aqui que o combustível caro já estava fazendo companhias aéreas cortarem voos. Desde então a lista cresceu. Explicamos o que a easyJet anunciou, quem mais está reduzindo a oferta e o que isso muda para a sua viagem.

O que a easyJet anunciou

Avião da easyJet no pátio do aeroporto ao pôr do sol
A easyJet vai voar menos neste inverno para gastar menos com combustível

O anúncio foi feito pelo CEO da easyJet, Kenton Jarvis, numa entrevista ao Financial Times reproduzida pelo Irish Times. No começo do verão, a companhia já tinha cortado cerca de 700 mil assentos dos voos de inverno. Agora vai tirar mais 600 a 700 mil, o equivalente a uns dois dias de operação.

Para ter uma ideia do tamanho: a easyJet costuma oferecer cerca de 50 milhões de assentos na temporada de inverno, que vai de outubro ao fim de março. Ou seja, o corte total fica em torno de 3% da oferta.

Segundo o Majorca Daily Bulletin, a companhia diz que serão cerca de 3.500 voos a menos no inverno 2026/2027, somando 1,4 milhão de assentos. A easyJet ainda não publicou a lista completa das rotas afetadas. A única mudança grande já confirmada é o fechamento da base de Leeds Bradford, na Inglaterra, depois de 5 de janeiro de 2027. Até o fechamento deste texto, não havia nenhuma rota italiana citada.

Jarvis explicou que a ideia é voar menos justamente nos meses de pouco movimento, para não pagar caro demais pelo combustível. “Todo mundo está tirando capacidade, vemos isso em todos os concorrentes”, disse. E admitiu: “Sinceramente, acho que foi uma surpresa para o setor que o combustível tenha continuado tão caro”.

A easyJet, aliás, está no meio de uma mudança de dono: em agosto ela aceitou ser comprada pelo fundo americano Apollo.

Quem mais está cortando voos

O CEO da easyJet tem razão quando diz que o movimento é geral. Estas são as companhias que já anunciaram cortes ligados ao preço do combustível:

  • Ryanair: em 2 de setembro, segundo o Irish Times, baixou a meta de passageiros do ano fiscal de 216 para 214 milhões, cortando voos entre novembro e março. A empresa comprou antecipadamente cerca de 80% do combustível que vai usar, a 67 dólares o barril, mas o restante teria de ser pago a preço de mercado, que estava em 140 dólares. Segundo o Financial Times, a Ryanair também está cancelando alguns voos às terças, às quartas e nos fins de semana mais fracos.
  • Wizz Air: segundo o site irlandês Travel Extra, a companhia húngara, muito presente nos aeroportos italianos, cortou 5% da capacidade do inverno.
  • Lufthansa: ainda em abril, segundo o The Local, o grupo alemão anunciou o corte de 20 mil voos de curta distância até outubro e antecipou o fechamento da CityLine, sua companhia regional.
  • LATAM: no Brasil, o presidente da LATAM Brasil, Jerome Cadier, disse à Reuters que a empresa reduziu a oferta de voos em 3% em junho e julho por causa do querosene caro, e que isso deve se repetir no segundo semestre, segundo a Gazeta do Povo. Os cortes atingem voos dentro do Brasil.
  • Azul, Gol e LATAM juntas: segundo a Abear, a associação das companhias aéreas brasileiras, as três cortaram em média 121 voos por dia em junho, como noticiou o Melhores Destinos.

A Ryanair já tinha avisado que as passagens de curta distância na Europa podem “aumentar de forma relevante” se o petróleo continuar caro até o verão de 2027.

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E a ITA Airways?

A companhia italiana, que tem voo direto entre São Paulo e Roma, não anunciou cortes. Em junho, o presidente da ITA Airways, Sandro Pappalardo, disse ao jornal La Nazione que a empresa tinha garantido 80% do combustível a preço controlado e que isso permitia “não cortar voos” no verão. Ele também lembrou que a ITA não entra nos 20 mil voos cortados pelo grupo Lufthansa, que é sócio da companhia italiana.

O problema é o ano que vem. Em setembro, segundo o TravelQuotidiano, o CEO da ITA, Joerg Eberhart, previu tarifas mais altas a partir de janeiro de 2027, quando acaba a parte do combustível comprada antecipadamente.

Quando o combustível pesa demais: Spirit e airBaltic

Para algumas companhias, a conta não fechou. A americana Spirit Airlines, conhecida pelas passagens baratas nos Estados Unidos, encerrou as operações em 2 de maio. Segundo a NPR, a empresa estava sob pressão crescente por causa da alta do combustível provocada pela guerra no Irã, mas os problemas eram mais antigos: ela já tinha passado por duas recuperações judiciais. A CNN mostrou passageiros encontrando balcões vazios e um aviso de que todos os voos estavam cancelados.

Na Europa, a airBaltic, da Letônia, entrou em 14 de setembro com um pedido de Chapter 11, uma espécie de recuperação judicial nos Estados Unidos. Algumas reportagens falam em falência, mas não é o caso: segundo o site especializado ch-aviation, a companhia confirmou que todas as operações continuam normalmente durante o processo. Ela atribuiu a piora do caixa, em parte, ao combustível mais caro.

Situação parecida é a da Volotea, que pediu proteção contra credores na Espanha. Ela continua voando, mas também já cortou rotas na Itália por causa do combustível. Segundo o Vivere Ancona, os voos de Ancona para Catania, Paris, Barcelona e Palermo ficam suspensos até o fim de novembro, e os voos entre Palermo e Nápoles foram cancelados para todo o inverno. Segundo o La Nuova Sardegna, a nova rota Olbia-Madrid foi cancelada pelo menos até meados de dezembro, e a companhia está oferecendo troca de voo sem custo ou reembolso integral a quem foi afetado.

Por que o combustível ficou tão caro

Tudo começou com a guerra no Irã, em fevereiro, que levou ao fechamento do Estreito de Ormuz, a passagem marítima por onde saía boa parte do petróleo do Golfo Pérsico. Segundo o Financial Times, o querosene de aviação praticamente dobrou de preço depois disso.

Em junho, a IATA, a associação internacional das companhias aéreas, calculou no seu comunicado oficial que o gasto do setor com combustível vai subir de 252 bilhões de dólares em 2025 para 350 bilhões em 2026, quase 100 bilhões a mais. A previsão é de que o querosene custe em média 152 dólares o barril este ano, contra 90 dólares em 2025. Com isso, o lucro do setor no mundo deve cair pela metade, de 45 para 23 bilhões de dólares.

O petróleo voltou a passar por Ormuz aos poucos, mas a recuperação é lenta. Segundo o The National, o governo americano diz que o fluxo de petróleo já chega a 14 milhões de barris por dia, mas dados da consultoria Kpler indicam que em setembro passaram só cerca de 44% do volume de antes da guerra. E o preço do querosene continua alto.

O que isso muda para quem vai viajar

Um assento a menos na programação não quer dizer, necessariamente, que um voo já vendido foi cancelado. Segundo o Majorca Daily Bulletin, a easyJet diz que costuma escolher rotas com vários voos por dia, para que o passageiro afetado possa ser transferido para outro horário.

Para quem vai viajar pela Europa entre agora e março, algumas dicas práticas:

  • se você já tem passagem na easyJet, na Ryanair ou na Wizz Air, confira de vez em quando o status da reserva no app ou no site da companhia e fique atento ao e-mail;
  • se o voo for cancelado ou mudar de horário, você tem direitos garantidos pelas regras europeias. Explicamos tudo no nosso guia sobre direitos dos passageiros aéreos na Europa;
  • com menos assentos à venda, a tendência é de passagens mais caras. Para o inverno e para as férias de fim de ano, deixar a compra para a última hora esperando uma promoção pode sair caro;
  • se a viagem tem conexão, prefira deixar uma margem de tempo maior entre os voos, principalmente se forem bilhetes separados.

Para quem viaja entre o Brasil e a Itália, até o fechamento deste texto nenhuma das companhias que fazem o trajeto anunciou corte nas rotas entre os dois países. O impacto maior, por enquanto, está nos voos dentro da Europa, aqueles que muita gente usa para esticar a viagem a outra cidade.

E você, já teve algum voo cancelado ou mudado neste outono? Conta pra gente nos comentários.

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