Uma brasileira que vive em um pequeno vilarejo do Piemonte acabou mostrando, quase sem perceber, como a decisão de uma única pessoa pode fazer diferença na vida de toda uma comunidade.

Aline Abade Lima saiu de Minas Gerais aos 19 anos e construiu sua vida na Itália.

A empreendedora brasileira Aline Abade Lima comanda hoje o "La Capra Ignorante", o ponto de encontro de Marentino, vilarejo nas colinas do Piemonte
A empreendedora brasileira Aline Abade Lima comanda hoje o “La Capra Ignorante”, o ponto de encontro de Marentino, vilarejo nas colinas do Piemonte

Mais de duas décadas depois, vive em Marentino, nas colinas próximas a Turim, onde administra dois estabelecimentos. Até aqui, poderia ser apenas mais uma história de uma brasileira que empreendeu no exterior.

Mas foi uma escolha aparentemente simples que colocou Aline no centro de uma questão muito maior.

Em agosto, justamente quando boa parte das atividades comerciais italianas fecha para as férias, ela decidiu continuar trabalhando. Em uma cidade grande isso talvez passasse despercebido.

Em Marentino, onde há moradores idosos, pessoas que não dirigem e cada vez menos serviços disponíveis, encontrar uma porta aberta pode significar conseguir comprar pão, fazer uma pequena compra, tomar um café ou simplesmente ter alguém com quem conversar.

Foi essa situação que acabou levando a história de Aline às páginas do jornal italiano La Stampa. O que chamou a atenção, porém, não foi apenas uma comerciante trabalhando em agosto, mas o papel que uma brasileira passou a ocupar na rotina de um lugar que tenta continuar vivo apesar da redução dos serviços e do risco de despovoamento.

Como uma jovem que deixou Minas Gerais aos 19 anos acabou se tornando tão importante para um pequeno vilarejo italiano? Foi isso que fomos descobrir conversando com Aline.

De Minas Gerais a Marentino

Quando chegou à Itália, Aline dificilmente poderia imaginar que sua vida acabaria ligada a uma pequena comunidade do interior do Piemonte.

Fachada do La Capra Ignorante em Marentino, Turim, Itália
Fachada do La Capra Ignorante em Marentino sob comando da brasileira Aline Abade Lima (foto: divulgação)

Hoje ela administra em Marentino o La Capra Ignorante – que reúne restaurante, bar e pizzaria – e também o La Dispensa della Capra, um pequeno comércio com padaria, alimentos, gastronomia, tabacaria e outros serviços.

Com o passar dos anos, porém, esses lugares deixaram de ser apenas negócios.

Para parte dos moradores, tornaram-se também pontos de encontro e referências para necessidades bastante simples do cotidiano. Há quem entre para comprar alguma coisa, quem pare para tomar café e quem apareça porque sabe que encontrará alguém para conversar.

É justamente aí que a história de Aline deixa de ser apenas uma história de empreendedorismo e passa a contar também um pouco sobre o que está acontecendo em muitos pequenos municípios italianos.

Por que ficar aberta em agosto faz tanta diferença

Agosto é um mês particular na Itália. Especialmente nas semanas próximas ao Ferragosto. O feriado celebrado todos anos no dia 15 de agosto marca o centro das férias de verão na Itália.

Nessa época é comum encontrar lojas, restaurantes e pequenas atividades fechadas para férias de uma semana, quinze dias ou mais.

Em uma grande cidade, o fechamento de um estabelecimento pode significar simplesmente procurar outro alguns quarteirões adiante.

Em um pequeno município, a situação pode ser completamente diferente.

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Imagem da matéria do La Stampa sobre a brasileira Aline Abade Lima nas redes sociais

A reportagem do La Stampa destaca principalmente os idosos e moradores que permanecem em Marentino durante o verão.

Para aqueles que não dirigem ou têm dificuldade para se deslocar, encontrar um comércio aberto perto de casa deixa de ser apenas uma questão de conveniência.

Aline decidiu, por isso, continuar trabalhando durante agosto. “Não abandono este pequeno vilarejo”, disse.

A brasileira que virou ponto de referência para os moradores de Marentino

A relação criada ao longo dos anos também aparece claramente na reportagem italiana.

Os estabelecimentos administrados por Aline se transformaram em lugares de convivência, especialmente para os moradores mais velhos. Quem chega para comprar alguma coisa pode acabar ficando para conversar. Quem mora sozinho encontra pessoas conhecidas. Quem precisa de um pequeno serviço sabe onde procurar ajuda.

É uma realidade distante da imagem da imigração resumida apenas à chegada em um novo país.

A história de Aline fala também sobre o que acontece depois: aprender a viver em outro lugar, trabalhar, construir uma família, criar relações com os moradores e, aos poucos, tornar-se parte daquela comunidade.

Mais de 20 anos depois de sair de Minas Gerais, foi justamente essa integração que levou sua história às páginas de um dos jornais mais conhecidos da Itália.

Assista à nossa conversa com Aline Abade Lima

Conversamos com Aline sobre sua chegada à Itália, a vida em Marentino, o trabalho nos dois estabelecimentos e a repercussão da reportagem publicada pelo La Stampa.

No vídeo, ela conta com suas próprias palavras como uma brasileira que chegou ao país aos 19 anos acabou construindo sua vida em um pequeno município piemontês e explica um pouco da relação que criou com seus moradores.

A conversa ajuda também a enxergar uma Itália que dificilmente aparece nos roteiros turísticos tradicionais: aquela dos pequenos vilarejos, onde fechar uma padaria, uma escola ou um comércio pode alterar concretamente a vida cotidiana de quem permanece.

Marentino: murais com enigmas, tradição do mel e uma curiosa ligação com a Fiat

Uma viagem pelo Piemonte incluindo destinos pouco conhecidos, mas que merecem a visita? Marentino não pode ficar de fora. Não só porque esse charmoso vilarejo a poucos minutos de Turim possui um restaurante ítalo-brasileiro, o La Capra Ignorante. A Aline aproveitou para dar algumas dicas sobre a cidade e compartilhar algumas de suas fotos com a gente.

O vilarejo de Marentino, no Piemonte
O vilarejo de Marentino, no Piemonte (foto: divulgação / Aline Abade Lima)

A primeira curiosidade sobre Marentino são os seus murais com rebus, os conhecidos enigmas visuais italianos. A iniciativa transformou paredes do município em telas para artistas. As obras misturam paisagens, natureza, tradições, lembranças e cenas da vida cotidiana com enigmas que desafiam quem passa pelas ruas a descobrir a solução.

O projeto contou com a disponibilidade da tradicional revista italiana La Settimana Enigmistica, referência nacional quando o assunto são palavras cruzadas, jogos e enigmas.

Assim, uma simples caminhada por Marentino pode se transformar em uma espécie de caça aos enigmas a céu aberto. Os murais aumentam a cada ano, criando mais um motivo para explorar o município a pé.

Outra curiosidade está ligada à história industrial do Piemonte. Aline lembra que Marentino já teve uma escola de formação de dirigentes da Fiat, onde eram preparados profissionais destinados aos cargos de direção da montadora que marcou profundamente a história econômica de Turim e de toda a região.

Marentino também possui uma forte ligação com a produção de mel. Em 27 de setembro de 2026, o município recebe a 31ª edição da Fiera del Miele di Marentino, evento dedicado a um dos produtos mais representativos da região.

É um lado do Piemonte bem diferente daquele que muitos brasileiros conhecem apenas através de Turim ou das famosas áreas produtoras de vinho como Barolo.

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Uma história brasileira que também conta algo sobre a Itália de hoje

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A brasileira Aline Abade Lima

A trajetória de Aline reúne vários temas conhecidos por quem acompanha histórias de brasileiros na Itália: imigração, adaptação, empreendedorismo e integração.

Mas existe outro elemento que torna esse caso especialmente interessante.

Pequenos municípios italianos enfrentam o desafio de manter moradores, atividades comerciais e serviços básicos. Quando uma padaria fecha, quando uma escola deixa de funcionar ou quando os poucos estabelecimentos restantes desaparecem, não é apenas a economia local que muda. A própria possibilidade de continuar vivendo naquele lugar pode se tornar mais difícil, principalmente para quem já é idoso.

É nesse contexto que a história da brasileira ganha um significado maior.

Aos 19 anos, Aline saiu de Minas Gerais e veio para a Itália sem imaginar que um dia seria apresentada por um grande jornal italiano como um ponto de referência de um pequeno vilarejo piemontês.

Hoje, enquanto muitas portas se fecham durante agosto, ela escolhe manter as suas abertas.

E, em Marentino, aparentemente há moradores para quem encontrar aquela porta aberta faz toda a diferença.

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Barbara Bueno - brasilnaitalia
Barbara Bueno é uma jornalista brasileira que mora em Florença desde março de 2005. Foi para a Toscana em busca das suas origens italianas. Em janeiro de 2007 criou o blog BRASIL NA ITALIA. Já trabalhou como content manager para a Regione Toscana, obteve habilitação como assistente turística e foi proprietária de agência de viagem na Italia (até chegar a pandemia...). Hoje se interessa por criptomoedas e voltou a fazer o que mais gosta: buscar novidades, visitar lugares interessantes e escrever! Se você tem uma dúvida sobre a Italia visite a seção Dúvidas sobre a Italia.

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