“Dov Charney é um imigrante canadense que vive nos Estados Unidos e, misturando empreendedorismo com espírito cívico está revolucionando a consciência americana. Com uma campanha sobre a “imigração justa” que começou em Los Angeles e chegou no coração de Milão. Um desafio para o mundo dos negócios, da política, e, no fundo, para todos nós.”

Essa é a apresentação que a revista italiana GQ faz sobre Dov Charney. Devo admitir que até então nunca tinha ouvido falar no cidadão, mas gostei muito de algumas coisas que ele disse na entrevista. E é sobre isso que quero falar neste post.

Melhores Momentos da Reportagem

“É o tempo da xenofobia, como existiu aquele da Inquisição. O futuro é: fronteiras abertas, mercado livre, direito a mobilidade.”

“A história é feita de contração e expansão (…) Vocês europeus eram fechados e agora olha que maravilha: viaje da Espanha para a França e para a Itália sem necessidade de passaporte e nem de câmbio de moeda. A história impõe melhoramentos: acabamos ou não com a escravidão?”

Ping-Pong

Durante a entrevista Charney fala sobre a sua visão da Europa. Diz:

“A Europa é forte, mas caiu em uma armadilha. É muito institucionalizada. Existem dois problemas históricos que a freiam: a oligarquia industrial e as regras socialistas. O comércio é controlado por poucos, que blocam o ingresso de novos concorrentes. Fazer fortuna é difícil. (…) Depois tem os sindicatos, as leis. Os sindicatos e as oligarquias estão do mesmo lado. Criaram um sistema absurdo. Como é possível ter cinco semanas de férias?”

O jornalista pergunta, para provocar: “São poucas?”

E ele: “São demais! Se um está fora cinco semanas, quando volta não se lembra mais que trabalho fazia. Trabalhar é alegria, paixão. Por isso a América ainda está na frente. Mas existe a Europa nos EUA e os EUA na Europa.”

Opinião de BRASIL NA ITALIA

Espero que você, que pensa em vir morar na Itália, tenha lido essa entrevista. Não porque eu acredite que tudo o que Charney diz é certo. Mas porque ele representa a visão americana sobre a Itália, e nós brasileiros temos muito mais da cultura americana do que você possa imaginar.

Os brasileiros que chegam aqui pensando em ficar ricos provavelmente vão se desiludir. Existem leis e regras que tornam complicadíssimo para um mortal comum abrir um negócio. É necessário ter licença para tudo. E licenças que custam verdadeiras fortunas (chegam ao valor de uma casa).

Os italianos de modo geral querem manter o estilo de vida conquistado e não necessariamente ficar ricos. Já conversei horas e horas com vários e sempre escuto a mesma coisa:

“Com o trabalho que faço tenho muito tempo livre. Tempo que uso para fazer esporte, para cuidar de mim, para dedicar as coisas que gosto. É um tempo que não tem preço. Poderia ganhar 10 vezes mais. Mas não teria a mesma qualidade de vida.”

No Brasil, assim como nos EUA, as pessoas tendem a se apaixonar pelo trabalho e dedicar a vida a ele. Aqui não é assim. É muito comum encontrar pessoas desmotivadas, que simplesmente esperam as horas passarem fazendo o mínimo possível. É um outro espírito. Isso pode ser frustrante para alguém que chega com a mentalidade de fazer e realizar.

As coisas continuarão assim por aqui ainda por muito tempo? Não sei. Você será mais feliz vivendo alla italiana? Não sei. Existem italianos que gostam do trabalho que fazem? Certamente também existem.

O que quero dizer é que aqui não existe um padrão de serviço. A qualidade do serviço que você obtém depende do humor de quem te atende. Depende da relação que você tem com quem te atende (já te conhece? nunca te viu antes?). Aqui cada um faz apenas as coisas autorizadas pelos manuais. Se o bom senso sugerir fazer uma vírgula a mais que não esteja nos manuais, escolhe-se sempre não fazer a vírgula a mais porque pode acarretar problemas.

Outro exemplo: a caixa do banco Posta. Outro dia acabei escutando a seguinte conversa entre duas funcionárias, uma veterana que aconselhava a uma recém contratada: “Nunca preencha os formulários para os clientes, mesmo que seja uma velhinha que diga que não consegue enxergar os formulários. Uma vez fui ajudar uma senhora, preenchi o valor que ela tinha me dito, que estava errado, e depois tive que pagar a diferença do meu bolso.”

A moral é “fazer menos é sinônimo de tranquilidade, fazer mais pode ser a causa de problemas.”

E você, o que pensa a respeito?

Sobre a GQ
Como sempre digo, é minha revista favorita em absoluto. A edição de setembro está maravilhosa e foi de lá que tirei trechos deste post.

3 COMENTÁRIOS

  1. Finalmente encontrei nas suas palavras a impressao que tenho em relaçao ao trabalho e a sociedade na Italia. Nao conseguia me expressar em palavras o que pensava..voce me ajudou! Realmente, è de se pensar..Os brasileiros se precisarem “abaixam as calçAs” para atender melhor enquanto os italianos sao como “maquinas” que fazem somente o que é permitido..
    Abraços, Daphne

  2. Os brasileiros “abaixam as calças” aqui na Italia ou em qualquer outro lugar, porque no Brasil ninguém quer limpar privada. Essa é a verdade!

    Algumas empresas e quase todas as lojas têm de 2 a 4 horas de almoço, têm o dia de chiusura e nao trabalham domingo.

    Somos uma mistura, com um pouco de portugues, africano, frances, italiano, japones e sei là mais o que. Trazemos o bom e o ruim de cada um desses que as vezes cai bem, mas em muitos momentos deixamos a desejar.

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