Não é fácil ter um problema de saúde, seja no Brasil, seja na Italia. A falta de informação faz com que a gente perca tempo e sofra inutilmente e é por isso que resolvi escrever este artigo. Não gosto de falar sobre vida pessoal e me expor tanto assim em público. Mas dessa vez vale a pena.

Situação presente

É um belo sábado de sol e céu azul de inverno. Hoje é 12 de dezembro, estamos a apenas alguns dias do natal. Época de montar árvore, passear no centro lotadíssimo, fazer algumas comprinhas ou simplesmente passear em mercatini di natale nas cidadezinhas nos arredores de Firenze.

Também época de adiantar os projetos de trabalho antes das férias de final de ano. Sim, eu comecei a trabalhar na H-art em novembro, mas já temos férias no natal e ano novo porque a empresa fecha e não sobra mais ninguém. Eu estou na fase de gás total, me sinto super animada a fazer mil coisas ao mesmo tempo, mas fui obrigada a parar.

Estou no hospital. Neste momento não me sinto mal e nem tenho dor. Cheguei na quinta-feira passada, para me preparar para uma cirurgia na sexta-feira, dia 11/12. No entanto ontem teve greve geral dos funcionários públicos (sciopero) e… não me operaram. Aqui no hospital atenderam somente as pessoas com casos sérios de risco de saúde e, felizmente, eu não era uma delas.

Passarei o final de semana a espera da confirmação do próximo dia da cirurgia. Não posso ir para casa, se for perco a prioridade e remarcam a cirurgia para daqui 1 mês ou sabe-se lá quando. Se ficar, provavelmente (disse a médica) me operam na segunda. Não gosto da palavra provavelmente porque ela pode significar tudo. E o preparativo para a cirurgia no dia anterior é meio chatinho e desagradável. Principalmente se depois a gente tem que repetir tudo de novo porque a cirurgia não aconteceu.

Caso de saúde

Quando digo que a informação pode ser útil me refiro a descobrir e tratar o problema do início. Eu tenho uma ciste endometriosa, basicamente é uma bolinha que cresce dentro da minha barriga, nos arredores do útero. É um caso frequente em mulheres, não é gravíssimo, basta tirar essa ciste e a vida (teoricamente) volta ao normal.

Eu poderia ter investigado o caso antes. Nunca tive cólicas menstruais e nenhum tipo de dor. Por isso, quando comecei a sentir dor no início deste ano, devia ter desconfiado. No entanto, pensei: “vai ver que com a idade chegando o corpo muda e a gente começa a sentir dor”. Que tolinha! Para completar sou daquelas que não tem tempo a perder com médico, exame, hospital. Coisa mais chata!

Atualmente a cada vez que me vem o ciclo eu vou parar no pronto socorro chorando de dor. São dias terríveis, mas porque deixei a ciste chegar a um tamanho absurdo de grande. Descobri o problema há dois meses quando fui parar no pronto socorro pela primeira vez. Conheci uma médica ginecologista muito eficiente que diagnosticou o problema antes mesmo que os exames estivessem prontos e confirmassem as suspeitas. Fez o possível para que eu fosse operada o quanto antes, me colocou em lista A de urgências. E quando finalmente estava chegando o dia da minha paz… greve geral!

Sistema de saúde italiano

Do ponto de vista financeiro, não tenho nada a reclamar. Não estou gastando um euro. No máximo tive que pagar 2 ou 3 tickets (cerca 30 euros cada um) para fazer exames antes da confirmação que teria que ser operada.

Os tickets funcionam assim: você pode fazer 30 exames diferentes, que custariam 500 euros, mas paga sempre no máximo o valor do ticket que é de cerca 30 euros.

Todo o resto: médicos, hospital são “grátis” (custeados pelos impostos que pagamos como cidadãos e residentes em uma determinada região e país). A minha médica por sinal é uma pessoa super competente e que me transmite muita segurança.

As refeições são servidas 3 vezes por dia, e os menus variam de acordo com que o paciente pode comer. Estou em um quarto com 6 camas, mas neste momento somos em 4 mulheres. Sou com toda certeza a mais jovem daqui. Ontem ao meu lado tinha uma senhora de 88 anos e outra de 96.

Nem tudo é mil maravilhas

A greve é um direito legítimo e considero especialmente necessária em um momento como este, em que o nosso primeiro ministro corta verbas para saúde e educação, talvez com o intuito de tornar necessário esse tipo de serviço privado (visto que ele já é dono de metade da Italia e ainda tem vontade de ficar um pouco mais rico). Se as condições fossem melhores, provavelmente não teriam greves e todos estariam felizes e contentes.

No entanto devo dizer que é muito desagradavel não poder ser operada e… não poder ir para casa. Estou em um limbo a espera que alguma notícia chegue. Ontem ao saber que não seria operada fiquei muito agitada, uma dor de cabeça incrível, chorei a manhã inteira non stop (talvez como consequencia desses hormônios que me fazem enlouquecer!) porque estou a poucos dias de mais um ciclo infernal e só de pensar me vêm o pânico.

Fiquei pensando como seria se eu morasse em São Paulo, com um plano de saúde bom. Do lado de lá parece sempre melhor: teria um quarto só para mim, com serviço 5 estrelas, em um dos hospitais maravilhosos da capital paulistana? Já teria resolvido isso logo após descobrir o problema e não dois meses depois? Quem pode saber…

O que sei é que como aqui as coisas são assim, as pessoas são também mais pacientes e a cobrança, inclusive de trabalho, é muito menor. Estão todos colaborando para resolver o meu problema, na verdade não posso reclamar porque o que pode ser feito está sendo feito. Às vezes devemos aceitar as impossibilidades da vida…

Mas fica aqui a dica: está com uma dorzinha? Vá correndo investigar o problema porque sentir dor não é normal. Bom weekend a todos!

Atualização 12:22: e enquanto eu me lamentava aqui por pequenos problemas, recebi a notícia que um jovem, agregado a familia, sofreu um acidente na noite passada na Castello Branco, voltando para São Paulo e morreu na hora. Deixa esposa e 2 filhos. Vale mesmo perder tempo com resmungos?

Atualização 22/12/2009:

Fiquei internada no hospital Santa Maria Annunziata por 11 dias, fui muitíssimo bem tratada, as enfermeiras eram todas gentis, atenciosas e pacientes e fizeram o máximo possível para me ajudar em qualquer momento que precisava (bastava apertar o botão do campanello).

Não só a minha médica é uma excelente profissional, mas no geral toda a equipe de médicos é muito preparada e eficiente.

Saí do hospital e tenho que tomar remédios por alguns meses que custam 180 euros cada caixa, mas eu não desembolso um euro porque paga o governo.

Conclusão: sistema sanitário toscano está de parabéns, apesar da greve. Me sinto segura em saber que tenho assistência de qualidade, independente das minhas condições financeiras do momento.

Agora é só esperar o tempo passar para eu melhorar… o tempo cura todas as feridas, já diz o ditado. Muita saúde para todos nós em 2010!

15 COMENTÁRIOS

  1. Espero que consigas ser operada o mais breve possível e que possas logo voltar à tua rotina de trabalho.Ficar em hospitais é horrível e conheço esses daí, que estranhamos, pois aqui estamos acostumados com privativos ou semi. Mas, desejo que tudo corra bem e tudo de bom,Boa sorte e fica bem logo,tá? beijos,chica( NÃO POSSO ESQUECER DE DIZER QUE PELO MENOS FUNCIONA POR AÍ, aQUI TENHO MEU FILHO QUE RECEBEU DE 3 m´edicos(convenio) o diagnóstico de câncer de pele. Um último, o 4º disse que não era. Resultado.Serm poder ou saber EM QUAL CONFIAR, temos que mandá-lo para um 5º e, dessa vez, particular. Pode??? beijos,chica

  2. Babi, os resmungos às vezes são necessários, pois se ninguém nunca reclama as coisas nunca mudam. O que não devemos fazer é cruzar os braços e entregar os pontos. Espero que vc seja operada o mais rápido possível. E eu não esqueço algo que já li neste blog dificuldades…podem ser vividas em qualquer lugar do mundo…
    Boa sorte e se cuida!
    Bom fim de semana!

    Letícia

  3. Também espero que te operem o mais rápido possível para que possa curtir o Natal e a folga antes de voltar ao trabalho.
    Muita energia positiva para ti!
    Beijos

  4. Oi Babi

    Te desejo melhoras! Fique tranquila que logo, logo vc sera operada e voltara pra casa. Ano passado meu marido sofreu um acidente gravissimo, e ele ficou 03 meses no hospital! Conheço bem a vida de hospital e sei que è dura!

    Um beijo grande

  5. @Chica
    Realmente na hora de tratar de saúde acho que um pouco de sorte é fundamental. É muito difícil saber o que fazer, especialmente com opiniões diferentes de médicos. Espero que dê tudo certo para o seu filho. beijos,
    Babi

    @Leticia
    Pois eh, as dificuldades acontecem em todo mundo. Espero só que passe logo, mas hoje já estou muito mais habituada ao ambiente.

    @Patricia
    Estou aqui na contagem regressiva… que pena, estava louca para viajar no final do ano, acho que vai ficar para a próxima…

    @Nisio
    Vou adiciona-lo. 🙂

    @Cris
    Espero que o marido esteja melhor este ano. Eu vi que você já começou a limpeza de ano novo para entrar em 2010 com boas energias. Faça sua listinha dos desejos antes da meia-noite… e só releia o papel um ano depois. Você vai ver que resultados incríveis. Um beijo grande,
    Babi

  6. Babi, só vi seu post hoje, estava viajando, espero que já esteja bem! Que já tenha sido operada e volte com gás total para curtir as férias e o período das festas.
    Beijo grande e melhoras!

  7. Nossa essa greve me pegou na sexta-feira de surpresa também. Melhoras para voce, feliz natal, que chato o acidente na Castelo, fica boa logo para eu comentar bastante no seu blog. Depois explica que os italianos tem que se cadastrar na USL e ter um medico de familia. Assim funciona o sistema para residentes.

  8. Melhoras pra vc Babi!
    eu ainda nunca precisei de user
    o sistema de saúde italiano..
    mas não deve ser mais burocrático que o
    sistema tupiniquim…
    Abraço
    André

  9. @Zaratustra
    Obrigada!

    @Roberta
    Sim, ainda bem estou já em casa a tempo para o natal. Nos vemos em 2010! 🙂

    @Cozzare
    Assim que tiver um tempo falo sobre isso. Pode deixar. 🙂

    @Andre
    Obrigada. Felizmente o sistema de saúde público italiano (ou pelo menos toscano) é muito melhor do que o brasileiro, apesar da greve. Consegui ser atendida sem ter nenhum amigo para "agilizar as coisas". Agora è so me recuperar…

  10. Fico feliz de saber que tudo foi bem, e que continua bem.

    Aqui onde estou em Londres, minha esposa esta gravida e foi dizer, estamos sofrendo com a indiferenca e falta de humanidade com que nos tratam, ontem mesmo a medica desligou o telefone na nossa cara, por isso estamos retornando em definitivo para o Brasil.

    Felizmente na Italia nunca precisamos do sistema de saude, mas pelo que sei no Brasil, fora dos grandes centros a coisa nao eh tao ruim, minha mae teve minha irma mais nova pelo SUS e fez 7 ultrasonografias, tinha atendimento 24 e contato direto com o medico, uma maravilha.

    Aqui, ate hoje nao vimos o medico, eles trabalham com parteiras, isso mesmo, cada gravida tem um parteira que "acompanha" a gravidez e faz o parto em casa.

  11. @Rodrigo
    Bom rever voce por aqui! Ja era hora de voce voltar ao Brasil. Acho que o estilo de vida europeu nao te fazia muito feliz e tenho certeza que nao faltarao oportunidades para voce crescer, especialmente neste momento em que o Brasil esta com tudo.

    Quando eu escrevo sobre o sistema de saude, falo daquilo que vi em Sao Paulo e Rio. Honestamente nao sei como eh nos outros lugares do Brasil, mas pelo que contam alguns leitores, no sul do pais em cidades menores parece que as coisas funcionam melhor.

    Parabens pela nova filha (sera menina?)! Que ela possa ser paparicada bastante nao so por voce mas como pelos avos, que ficarao contentes em estar por perto. 🙂

    Um feliz 2010 para todos nos!

    Barbara

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