Estava prestes a não renovar mais a minha assinatura da revista italiana GQ, que acaba de passar por uma mudança editorial, transformando-a em um entediante catálogo de moda masculina. Abri essa edição de setembro já com aquela má vontade e quando li o editorial de Michelle Lupi, que sempre considerava o ponto forte da revista, pensei: que babaquice. Nesta edição 132, Lupi descreve como quase mataram Vanessa Incontrada obrigando-a a estar das 11 da manhã às 5 da tarde sob um sol tórrido de verão de 37°C  para fazer a foto da capa, o que a fez desmaiar no final do dia. Mas o editor da revista diz como ela foi perfeita: “não se lamentou nem uma vez!”

Continuei virando páginas e me deparei com a crônica de um jornalista que descreve os jantares em restaurantes envolvendo casais -jovens e menos jovens- com uma característica em comum: sempre mudos, cada um na sua, sem conversar ou trocar idéias. Pensei: estou cansada de ler histórias de jornalistas mal amados que tem o olhar voltado apenas a histórias tenebrosas envolvendo casais. E não é só a GQ não, a Glamour é ainda pior! As revistas passam o tempo falando como se apaixonar e depois como trair, dizem para experimentar as novas delícias gastronômicas e depois convidam a uma dieta desintoxicante, colocam tantas minhocas na cabeça das pessoas com o único objetivo de vender os serviços dos anunciantes. É patético. Tudo tem limites.

Já estava comemorando o fato de que essa era a última edição da minha assinatura quando finalmente achei uma matéria que chamou a minha atenção. O título dizia “L’arrivederci del Calamaro”. Sim, se referia exatamente a Lula, o presidente da República do Brasil. Quem é expatriado sabe que apenas escutamos a palavra “Brasil” ou qualquer outra relacionada ao nosso país natal os olhos se voltam curiosos para saber do que estão falando. É uma espécie de paixonite que com o tempo só aumenta. Um amor a distância, um pouco platônico, muito curioso.

A matéria, de duas páginas, conta a trajetória de Lula e explica o seu apelido: “o chamavam assim, com um apelido de perdedor, como – aparentemente – era a sua história. mas agora que Lula tem guiado o Brasil para um surpreendente milagre econômico, se olha com curiosidade as eleições de outubro. Ele não concorre, no entanto…”- e começa o artigo para valer.

Quem ficar curioso, coloco a versão original aqui ao lado, basta clicar na imagem para ampliá-la, especialmente útil para quem está no Brasil ou em qualquer lugar do mundo, sem acesso a esta edição da GQ.

Por que estou falando do Lula aqui? Porque não deixa de ser interessante saber que uma revista italiana de comportamento (e não um semanal político) dedica duas páginas ao Brasil e às eleições brasileiras.

Significa que o olhar da Italia – e talvez de outros países – hoje falam do Brasil como um país inovador, onde é possível um trabalhador pobre governar um país gigantesco, tudo isso sem guerras, sem revolução, apenas com a democracia.

Não vou discutir aqui se a democracia acerta sempre – até porque basta olhar para o atual governo italiano para ter vontade de fazer as malas novamente. De qualquer modo, um artigo do gênero é um ponto positivo.

Gostei principalmente da parte que diz: “Lula fecha, vai embora depois de 8 anos e dois mandatos que produziram uma virada clamorosa. Tão importante a ponto de ter mudado as discussões sobre o país do mix “mulatas, futebol e praia” para um debate sobre o milagre econômico surpreendente”.

Surpreendente mesmo. Quando estive em São Paulo na páscoa este ano, fique boquiaberta com as grandes mudanças na arquitetura da cidade: prédios enormes, verdadeiros arranha-céu gigantescos, estão sendo levantados na área da Vila Olímpia-Itaim. Avenidas largas, enormes, pontes que antes não existiam estão lá brilhando. E o preço dos apartamentos então? Disparados! Advinha se eu não fui lá dar uma de compradora para saber quanto custava um apartamentinho: o valor do metro quadrado está quase tão caro como aqui em Florença! Novos apartamentos de 80 metros quadrados que custam quase um milhão de reais. Choque! Quem é que pode comprar uma casa a esse preço no Brasil? Quer dizer que agora todo mundo virou milionário….?

Esse milagre econômico é para todos ou só para uma elite? Existe uma política para as classes menos favorecidas? Espero que alguma coisa esteja mudando para melhor. De qualquer modo sinto um pouco um ar de mudanças, a começar pelos brasileiros: estão mais críticos, mais engajados. Aqui no blog, pelo menos, a discussão ferve. Os brasileiros no exterior querem mostrar o quanto o Brasil é um país maravilhoso, que devemos começar respeitando-o nós mesmos invés de fazer a corte para todos que chegam de fora. Palavra dos leitores do blog. Às vezes dita com um tom de raiva, mas que não deixa de ter o seu lado positivo. Uma vontade de gritar ao mundo que o Brasil é beleza, riqueza e potencial. Quem sabe, realmente, o Brasil será o país do futuro?

Voltando ao tema inicial, a assinatura da GQ… vou pensar mais um pouco. Afinal, se existe um artigo que vale a pena em toda a revista, já terá sido um bom investimento. Que falem cada vez mais do Brasil!

1 COMENTÁRIO

  1. É muito bom saber q o Brasil está perdendo o rótulo de país da bunda, carnaval e futebol!

    Sim, nosso país está se fortalecendo economicamente, e isso é ótimo, o Real é uma moeda estável, hj é mais fácil adquirir bens financiados, o que permite que as classes sociais mais baixas tenham acesso a casa própria, carro, eletrodomésticos, etc.

    Uma pena que o mesmo não acontece com o social… esse Brasil forte, cheio de oportunidades, ainda é pra gringo ver.

    O governo oferece incentivos fiscais para que grandes multinacionais se instalem aqui, mas um micro empresário brasileiro, se for pagar direitinho todos os seus impostos, quebra logo nos primeiros anos.

    A chegadas dessas empresas significa mais vagas de emprego, mas infelizmente a maioria dos brasileiros não têm condições de preencher essas vagas, pq o ensino por aqui vai de mal a pior. Uma vaga para recepcionista, com um salário de 800 reais/mês, pede ensino superior e inglês fluente, e terminamos o ensino público sabendo dizer "My name is…" e olhe lá.

    Moro no centro de São Paulo há 20 anos, e posso afirmar que nunca vi um estado de abandono tão grande!!! Lixo nas ruas, o número de crianças delinquentes triplicou, vc anda pelas calçadas tentando desviar dos viciados em crack e moradores de rua, que tb aumentou muito!

    Pessoas morrem diariamente nas portas dos hospitais públicos por falta de médicos e de atendimento. Eu tenho 900 reais descontados mensalmente do meu salário em impostos, e se não quiser morrer na fila de um hospital ainda tenho q desembolsar mais 200 reais num plano de saúde particular.

    O Brasil tem potencial pra ser o país do futuro, mas pra isso acontecer os nossos governantes devem cuidar não apenas do crescimento ecomômico, mas tb do social, oferencendo principalmente educação pública de qualidade.

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