Todos os anos minha família vai passar as férias de verão em Palermo, na Sicília.
No início era uma animação: todo mundo queria me mostrar as belezas sicilianas, organizávamos viagenzinhas para conhecer as cidades mais famosas como Cefalù e Taormina, fazíamos bate-volta para curtir o mar da Riserva dello Zingaro, quem sabe passar uns dias em San Vito Lo Capo ou simplesmente dávamos uma esticadinha até ilhas paradisíacas como Favignana e Levanzo.

Mas neste 2026 as coisas foram menos interessantes. Chegou aquela sensação de “déjà vu“, como se já tivéssemos visto tudo e feito tudo, diversas vezes. Como se o esforço do movimento, não valesse o prêmio do que iríamos encontrar.
Para completar até é difícil reconhecer nas fotos qual ano é porque, como dizem minhas filhas, eu me visto todos os anos com as mesmas roupas e os mesmos acessórios.

Para completar, minhas filhas viraram definitivamente adolescentes.
A mais nova está na fase das compras. Ela só quer sair se for para comprar alguma coisa, seja uma blusinha, um acessório para o cabelo ou uma bugiganga qualquer. E eu não tenho muita paciência para passar horas no shopping – que aqui se chama “centro commerciale“. Então quem opta por não sair nessas horas sou eu (felizmente ela tem um tio que adora levá-la para fazer compras!).
A mais velha, por sua vez, está viciada em Netflix. Se você perguntar se ela quer sair para dar um volta ou ver Netflix, certamente ela irá responder Netflix. Então a alternativa é partir para a ameaça: “se você não sair com a gente, vou simplesmente bloquear a conta da Netflix!”. Ela também é viciada em livros, então, dependendo do calor exagerado lá fora, é capaz dela optar por ficar em casa mesmo assim. Lendo.
Meu marido já foi uma pessoa animada que topava mil aventuras e atividades. Agora ele anda em uma fase, digamos, mais caseira.
Enfim, tinha chegado aquele momento das férias em que se eu quisesse fazer alguma coisa sem ter que ficar implorando por companhia, teria que fazer sozinha. Não que isso fosse um problema. Nunca tive problemas para sair ou viajar sozinha, inclusive gosto de ter momentos só para mim, para refletir sobre a vida, caminhos e próximos passos.

Foi neste clima que saí de casa meio sem rumo para dar uma volta no centro histórico de Palermo. Decidi comprar um ingresso para o Palazzo Reale, já que fazia mais de uma década que eu o tinha visitado pela última vez. Se entrei com o objetivo de ver especificamente a Cappella Palatina, acabei sendo surpreendida por uma mostra sobre a Normandia que fez minha mente voar.
Tesouros impressionistas: Monet e a Normandia no Palazzo Reale de Palermo
Após superar o ingresso e a lojinha do Palazzo Reale, acabei entrando em uma ala escura, onde apenas as obras da mostra “Tesori Impressionisti Monet e la Normandia” estavam iluminadas. E um dos primeiros quadros que chamou minha atenção foi uma praia pintada por Claude Monet com a legenda “O mar em Fécamp”.

Nesta hora comecei a fazer uma viagem no tempo na minha cabeça: não para o ano de 1881 quando a tela foi pintada, mas para 2004, quando fiz minha primeira viagem para a Europa, para passar 10 dias em Paris.
Era o mês de junho, eu estava hospedada em um hostel em Paris e lá tive contato pela primeira vez com gente que passava meses viajando pelo mundo.






Naquela época, as redes sociais eram bem diferentes do que conhecemos hoje.
Só para dar uma ideia da cronologia dos fatos: o Facebook foi lançado como The Facebook em fevereiro de 2004 e na época ainda era restrito aos estudantes universitários americanos. O YouTube só foi lançado em fevereiro de 2005 e era totalmente diferente de agora. A ideia de travel blogger ainda era uma coisa que estava por nascer.
Então aqueles encontros no hostel, com gente que vivia viajando, foram algo totalmente novo e me deixaram com a “pulga atrás da orelha”, com aquela curiosidade sobre esta maneira diferente de viver a vida, que me levaria alguns meses depois a decidir largar minha vida em São Paulo para vir para a Itália em busca de novas aventuras.
Mas o que Fécamp tinha a ver com essa viagem a Paris? Depois de vários dias na capital francesa, pedi uma dica para um dos viajantes sobre algo diferente para ver nos arredores. A indicação que recebi foi a de pegar um trem para passar o dia exatamente em Fécamp, na Normandia.

Naquela época eu ainda pensava como alguém que vivia no Brasil, estava acostumada com o calor, e é claro que nem passou pela minha cabeça a opção de levar um biquini para uma praia francesa. Na verdade eu nem tinha colocado um biquini na bagagem! Era início de junho, quase verão na Europa, mas eu só queria mesmo ver como era o lugar e sair para espairecer no litoral norte da França.
Enquanto visitava a exposição sobre a Normandia, comecei a pensar como o pintar da época de Monet era quase como o fotografar da minha época. Era registrar um momento. Mostrar para os outros como era um lugar, o que estava acontecendo, congelar um instante para a posteridade. Sempre gostei de fazer isso.







Será que se eu tivesse vivido no século XIX teria sido uma pintora? Tirando o fato que considero que não tenho nenhum talento para a pintura hoje, será que teria desenvolvido esse talento? Nossos talentos dependem da tecnologia de uma época? Será que a IA nos fará descobrir novos talentos e novos interesses?
Olha quanta coisa passou pela minha cabeça apenas olhando para um quadro de uma praia. E no fim, enquanto passeava pela exposição, fui pensando em como o interesse por uma mostra depende mais de quem somos naquele momento do que da mostra em si. Alguém ao meu lado passou batido pelo quadro, talvez pensasse que era apenas mais um quadro de uma praia qualquer.
E talvez se não estivesse escrito Fécamp na legenda, eu nem teria pensado em tudo isso. Não teria nem reconhecido a praia, para falar a verdade. Já que a imagem se parece com tantos outros lugares por onde já passei.
Esta viagem para Palermo em 2026 também me fez pensar que talvez esteja começando uma nova fase da minha vida. Por mais que adore o mar e curtir dias de verão nadando em águas cristalinas, já vivi essa sensação tantas vezes. Agora quero viver coisas novas. Ainda não sei muito bem o que quero, mas deixo este texto aqui registrado para a posteridade. Sei que daqui a alguns anos ele vai fazer total sentido para mim.

Serviço sobre a Mostra de Monet e Normandia no Palácio Real de Palermo
Mostra: Tesori Impressionisti: Monet e la Normandia
Onde: Palazzo Reale di Palermo – Sale Duca di Montalto
Até quando: 28 de setembro de 2026
O que ver: 97 obras de 45 artistas, com trabalhos de Monet, Renoir, Corot, Boudin, Courbet, Morisot, Bonnard e outros nomes do século XIX
Endereço: Piazza del Parlamento, 1 – Palermo
Por que esta exposição é especial?
Além das quase 100 obras reunidas no Palazzo Reale de Palermo, Tesori Impressionisti: Monet e la Normandia propõe uma experiência que vai além da exposição tradicional. O percurso é dividido em cinco seções e inclui três instalações imersivas, com videoprojeções, fotografias e recursos de inteligência artificial, dedicadas à pintura en plein air, às paisagens da Normandia e aos céus impressionistas, com uma homenagem também a Vincent van Gogh.
A escolha de Palermo também tem um significado histórico. A mostra cria um diálogo entre a Normandia francesa e a Sicília, duas terras ligadas pela história normanda. A iniciativa antecede ainda as celebrações de 2027 pelo milênio do nascimento de Guilherme, o Conquistador, enquanto na Sicília os Altavilla deram origem ao Reino da Sicília sob Rogério II.
Há ainda uma coincidência importante no calendário: 2026 marca os 100 anos da morte de Claude Monet, falecido em 5 de dezembro de 1926. A exposição em Palermo, aberta até 28 de setembro de 2026, torna-se assim também uma oportunidade para revisitar a obra e o legado de um dos grandes protagonistas do Impressionismo justamente no ano de seu centenário.
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