Dividir casa não é exatamente a coisa mais fácil do mundo. Ainda mais quando a gente não conhece as pessoas que serão nossos colegas de apartamento. Eu cheguei em um domingo a noite diretamente para um hotel. Levei 2 dias até conseguir me achar em Florença e ter o meu celular. Na quarta-feira já estava visitando apartamentos e na segunda-feira seguinte me mudei.

Cheguei na casa na segunda-feira de manhã, deixei as malas, e saí porque era o dia em que estava programada uma viagem para Chianti com um grupo que eu havia conhecido na semana anterior. E eu não ia perder por nada a ocasião de me divertir com os novos amigos e conhecer o processo de produção de um dos mais tradicionais e renomados vinhos do mundo. O dia foi agradabilíssimo. O problema foi a noite.

Eu cheguei e fui imediatamente tomar um belo banho para regenerar as energias. Perguntei qual dos banheiros eu poderia usar da casa (tinham 2 banheiros com chuveiro em uma casa de 4 quartos onde moravam 5 pessoas, eu inclusive). Separei os apetrechos e lá fui eu.

Entrei no banheiro. Coloquei as coisas nos lugares apropriados, entrei dentro da banheira e fechei a cortininha para ligar o chuveiro. Primeiro trauma: a cortina estava toda mofada na parte interna, eu olhava para aquilo e me vinha um nojo incontrolável. Resolvi olhar para o outro lado e continuar.

Na Italia os chuveiros não são como no Brasil. De modo geral, as casas tem banheiras e chuveirinhos que podem ser pendurados na parede e dão a sensação de serem (quase) um chuveiro normal. Abri as torneiras, me molhei e comecei a me ensaboar. Quando estava com sabão por toda parte, misteriosamente a água quente parou de sair!!!

Saía só um fiozinho de água quente ou então água fria. Só que era março, era de noite e a água fria era mais gelada que a água da geladeira! Resultado: tive que me enchaguar com aquele fiozinho de água, levei uns 40 minutos para terminar o banho, não podia chamar ninguém para me ajudar e perguntar o que era, não tinha tido tempo de trocar mais do que aquela apresentação básica de “prazer, eu sou fulano”. Depois eu descobri que o fato sempre acontecia quando alguém usava a água quente na pia da cozinha. Como era a hora do jantar, estavam lavando a louça.

Saí do banho, mas não terminou aí: fui escovar os dentes e vi uma camada de pó, misturado com restos de pasta de dente que pareciam estar lá há meses, e quase vomitei de novo. Eu olhava aquele banheiro e tinha medo de tocar qualquer coisa. Sabe a sensação de você estar no banheiro da sua casa, mas agir como se estivesse em um banheiro público? Foi essa. Saí de lá e fui dormir. Tinha um único cobertor e tava um frio dos diabos.Dormi cheia de malhas, mal podendo me mexer. Além disso, tinha esquecido de comprar um travesseiro e não me sentia íntima o suficiente para pedir um emprestado. Foi uma noite horrível! Aquele que era só um momento, de repente me pareceu um drama existencial e fui dormir rezando para ter forças de não voltar para o Brasil no dia seguinte. Para completar, ainda não tinha internet em casa e não tinha com quem falar e desabafar (as ligações naquela época para o Brasil pelo celular eram caríssimas).

No Brasil eu vivia uma realidade atípica. Por exemplo: sempre morri de nojo de colocar o lixo fora de casa. Só de tocar o lixo, já me dava arrepios. Pensar em fazer uma faxina me parecia a maior humilhação possível na vida de alguém. Mais humilhante ainda era pensar que deveria limpar coisas que uma outra pessoa sujou antes de mim!!!

Imaginava chegar em uma casa arrumada, como se todos estivessem esperando para me dar as boas vindas. Mas eu era simplesmente uma pessoa qualquer para reduzir os custos das despesas. E além de conversas sobre o tempo, sobre como funciona a máquina de lavar, ou coisas do gênero, ninguém me convidou para ir para lugar nenhum. Realisticamente não tínhamos nada em comum e aliás, dois dos indivíduos da casa só sabiam me dizer coisas que eu não poderia fazer.

Não podia trazer amigas ou amigos para casa, não podia colocar música “alta”, nem ver filme no computador porque o barulho atrapalhava. Tinha que limpar a casa uma vez por semana (cada um da casa tinha o seu dia da semana de faxina, mas na prática ninguém limpava nada).Era obrigada a dividir a conta de telefone fixo, mas não podia telefonar para o Brasil de noite porque atrapalhava, o que para mim significava na prática não poder usar o telefone porque o melhor horário para telefonar para casa era depois das 10 da noite.

Não foi um início muito fácil. Até que a gente entende que:
1) Não é preciso conviver com uma cortina de banheiro nojenta. Dá para comprar uma nova até por 3 euros no mercadinho. Com 15 euros você compra uma super “tenda per la doccia”!!!
2) Se está sujo, basta limpar. Fazer faxina não é um drama, é um prazer, principalmente depois de ver que está tudo em ordem. Não somos seres inferiores por fazer faxina, aliás, superiores porque somos limpos e sabemos nos virar bem sozinhos.
3) As regras de uma casa podem ser discutidas e são válidas para todos. Basta não abaixar a cabeça e dizer sim senhor. É lógico que para isso é preciso saber se comunicar em italiano. E é lógico também que no ínicio a gente quer fazer amizades e não inimizades. Mas a gente descobre que às vezes é melhor não ser muito amigo e viver tranquilo.
4) Você não vai se sentir em casa na Italia até ter uma casa só sua (ou com a sua família).
5) As leis e “Finanziaria” geralmente garantem auxílio financeiro para as pessoas de baixa renda. Na maioria das vezes, imigrantes (incluindo brasileiro que vem morar na Italia, mesmo que tenha cidadania) são os que têm a menor renda. Aliás, esse é um motivo que gera conflito com italianos nascidos na Italia porque eles dizem que trabalharam toda a vida e pagaram impostos e agora quem usufrui são os extrangeiros e extra-comunitários, que sempre tem uma renda menor do que um italiano. Isso sem falar, que os estrangeiros às vezes tem um monte de filhos a tira-colo o que fazem “ganhar pontos” na hora de conseguir benefícios públicos. Deixe a polêmica de lado e informe-se sobre seus direitos e deveres. Veja se você pode participar de alguma gradatoria para conseguir benefícios do Estado.

8 COMENTÁRIOS

  1. Olà sou Sandra,caipirinha do interior de sao paulo, se arriscando na bota (MODENA). Tuas experiencias, dicas e visao tem sido uma excelente cartilha…

    Jà passei por aqui muitas vezes, hoje quiz deixar minha marquinha…

    Abraços

  2. Fala Sandrinha,
    Bem vinda ao site! E pode deixar a sua marquinha por aqui quando quiser… 🙂

  3. Ola blog e leitores.
    Nossa, tudo que tu descreve passei/passo aqui na Italia. Uma dica que dou, pra quem estah indo para alguma cidade grande eh olhar em murais de universidade. Tem sempre muita oferta de estudantes procurando gente pra dividir quarto ou apartamento. E sobre a limpeza, eh isto ai, nao tem nada de errado em limpar. O errado eh ficar na sujeira. Cruz credo!
    Abraco e boa sorte a todos.
    Rogerio.

  4. Oi,

    Estava com saudades de vir aqui… estou trabalhando tanto nas minhas
    bijoux que nao dá tempo de passar pelos blogs e comentar que tanto adoro 🙂

    Lendo este post aqui, me lembrei da segunda casa em que fiquei quando estive ai na Itália… rsrsrs… IGUALZINHO… o lance da cortina do box… ai… eu fiquei tão longe pra q “aquilo” não me tocasse, q não notei o quanto estáva próxima do aquecedor (sem proteção nehuma) e num movimento mais brusco, acabei queimando meu braço…affff… ainda bem q fiquei lá só 2 dias 🙂

    PS: agora tenho outro blog, só sobre arte e artesanato… passe pra ver as novas peças… ahhhh e logo logo elas vão estar ai pertinho de vc… em Prato 🙂

    bjs 😉

  5. Ola!

    Eu sou da Roménia minha ex namorada foi uma brasileira ela me falava sempre a mesma coisa que vc falou “
    Na Italia os chuveiros não são como no Brasil.” nunca entendi isso pq sou acustumado este jeito de tomar o banho aqui na europa , com o frio e a agua que sempre acabava. Ela me falava que esta coisa nao acontece nunca ai, deve ser uma maravilha. Boas sorte aqui , pq nao e facil!

  6. Salve Roberto…
    Realmente nada mais gostoso do que um belo banho com agua abundante… 🙂
    Boa sorte para todos nos,
    Saudaçoes,
    B.

  7. O lance do banheiro ja passei também, mas nao pela cortina e sim pela pouca agua. Quando estive na Sicilia a agua era tao pouca que para lavar o cabelo demorei séculos e ainda tive que fazer por partes e pedir ajuda para meu namorado! Ainda bem que o banheiro era limpissimo, mas o problema é que queria terminar logo porque escutava barulho de pomba atras da porta (uma porta que dava para o sotao). E eu tenho pavor de pombas (imagina em Milao e Veneza a cena comica!).

    Eu imagino como voce deve ter sofrido no começo. Cheio de regras e imposiçoes, casa suja e ainda por cima sem ninguém conhecido, amigo.

    Quanto a casa suja, acho meio falta de respeito nao limpar pelo menos para receber o novo hospede. Toda vez que vem gente aqui eu limpo toda a casa, mesmo quando esta limpa, coloco toalhas e cobertores a mais para o hospede, deixo tudo organizado, mais do que o habitual (sou chata para isso, tudo tem que estar no devido lugar).

    Eu tive a sorte de chegar aqui e encontrar tudo arrumadinho… me sentia em casa, so quando acordava de manha e vi que nao estava em Sao Paulo me batia a saudade…

  8. Dividir casa com estranhos não é fácil não… Precisa ter sorte de encontrar gente bacana.
    No começo dá mesmo uma saudade…

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