“Vou morar na Italia”, avisei uma amiga poucos dias antes de partir. Ela, infância-adolescência em Paris e trinta anos de Brasil nas costas anunciou: “vai ser mais uma sem pátria”. Achei uma bobagem.

O quotidiano

Morar longe do seu país natal cria sentimentos estranhos. Em um dia, não existe lugar melhor no mundo do que aquele que nos recebe no momento. No outro é absolutamente o oposto. E assim passamos, de um dia a outro, comparando.

Vamos a um exemplo prático: outro dia uma amiga na faixa dos cinquenta, me contou em tom de preocupação “descontraída” que os planos de saúde brasileiros estão se recusando a aceitar clientes de uma certa idade. Como a empresa onde ela trabalha sempre pagou pelo seu seguro saúde, ela se perguntava o que aconteceria quando se aposentasse e tivesse que partir para um plano privado individual. “O jeito é não ficar doente” – completou – “E viva o esporte!”

Se você recebe essa notícia em um dia que está de bem com a Italia dirá: viu que maravilha, aqui na Italia isso não aconteceria (pelo menos por enquanto) porque a saúde é pública, para todos, não é preciso gastar um centavo e blábláblá.

Se você receber a notícia em um dia que está de bem com o Brasil dirá: viu como os brasileiros tem um espírito fantástico, encaram os problemas como um desafio e na realidade acabam realmente ficando menos doentes porque na Italia qualquer um que está com um resfriado já vai ao médico, o que esperam que o médico diga além de “tome uma aspirina” ou algo do gênero?

O mix

Eu tenho muito orgulho da minha brasilidade. A minha terra, a minha família, os meus amigos. O local onde vivi anos maravilhosos que guardo com carinho. Me sinto feliz também com a minha italianidade.

A verdade é que quando moramos longe do nosso país, com o tempo ganhamos uma característica especial: não somos nem lá, nem cá. Somos um mix. E talvez o segredo seja simplesmente aceitar e tirar proveito desse mix.

Cada lugar no mundo é único, tem uma personalidade própria, com seus defeitos e qualidades. Mas o ser humano é sempre o mesmo. Muitas vezes, escolhemos a superficialidade de “a grama do vizinho é sempre mais verde”.

Outro dia na TV quem contava sobre as suas dificuldades de imigrado era um italiano que tinha ido se aventurar na California. E aquele mesmo papinho das complicações em se integrar…

E por que vale a pena mudar de país?

Se vai valer a pena para você, eu não sei. Mas reparo que no fundo as pessoas escolhem deixar para trás o conhecido para irem em busca de si mesmas. Para descobrir novas possibilidades, novos caminhos, uma nova vida. Sabe a sensação gostosa de formatar o computador e poder começar tudo do zero, instalar novos programas, baixar arquivos? Montar um novo computador do começo. Uma vida zerinho em folha.

É muito mais fácil no entanto, continuar com o computador de sempre, com os arquivos que precisamos já a mão, os programas já instalados. Começar de novo dá trabalho, instalar coisa por coisa, descobrir incompatibilidade de software, ter que buscar assistência tecnica. Caos. Ao mesmo tempo, a sensação de ser livre para escolher, testar, experimentar.

Alguns programas rodam bem. Outros travam o sistema e é preciso voltar um passo atrás e recomeçar. Em busca da Utopia do perfeito.

11 COMENTÁRIOS

  1. Caro(a) escritor(a) do Brasil na Itália, sensacional seu post de hoje estou me sentindo justamente assim….sair em busca do desconhecido e me (re)descobrir…ou continuar no mesmo lugar por causa da comodidade…inclusive queria aproveitar e dizer que na quinta passada, comentei seu post sobre as diferenças entre a cultura brasileira e italiana durante minha aula de italiano… imagine deu o que falar, pois meu professor é de Rimini…rsrsrs
    um forte abraço e uma boa semana!

  2. @ Leonardo, bom ver voce por aqui!

    @ Leticia, quer dizer que o post de quinta rendeu ate para a aula? Bem, pode falar para o seu professor que todo verao acabo sempre dando uma passadinha na terra dele, nem que seja para um bate volta rapido. 🙂
    Ele mora no Brasil ha tempo? Tem um blog? Seria interessante ler o blog de um italiano no Brasil.
    Sobre sua aventura de vir morar na Italia, o importante eh seguir sua intuiçao.
    E pode passar sempre por aqui para dar um oizinho.

  3. oiii!!!
    desculpe ter demorado para responder seu comentário,mas faz algum tempo que não passava naquele blog.
    sim,as template são minhas criações é por isso que elas têem um ar de perua…rsrsrs
    mudando de assunto …isso mesmo, tenha orgulho de sua brasilidade.
    bjs…bye!!!

  4. Belo texto. A busca da utopia, de si mesmo.

    Estou na Italia hà quase 3 meses e jà vivenciei muito do que vc disse. E concordo plenamente. Parabens pelo blog, sempre o leio.

  5. Exatamente isso que acontece comigo e com tantos outros imigrantes e emigrados.

    O que voce escreveu, tinha estudado no curso de turismo e estava relendo esses dias os tipos de turistas. Alias, é algo que vou perguntar para minha professora. Eu sou imigrante mas nao me sinto imigrante, ora me sinto turista (porque cada lugar é uma novidade para mim, mesmo se ja tenha ido varias vezes), ora me sinto italiana (ja estou até acostumada a ouvir italiano que parece estar ouvindo portugues, alias, quando ouço portugues, principalmente o brasileiro, da uma sensaçao do tipo “olha que legal, brasileiro!”).
    A minha vida na Italia seria somente de um ano. Nunca pensei que poderia viver tanto tempo longe de casa, dos meus pais, dos meus irmaos, amigos, Sao Paulo. Para falar a verdade, achei que nem iria conseguir terminar a pos aqui. E agora estou ca ja ha mais de 2 anos! E quando vou ao Brasil sinto saudade daqui (principalmente do que deixei aqui :D)

  6. @Gerson
    Obrigada pela participaòàao. Estou respondendo só hoje porque acabei vendo o comentário só hoje, não sei como! 😛

    @juliana
    Que bacana saber que o curso de turismo diz algo que sentimos realmente. Deve ser um bom curso 🙂
    É verdade, tem cidades que eu vou mil vezes e mil vezes me sinto turista, quero ver algo novo, tirar fotos, me sinto passeando…

  7. Me chamo Alberto, sou italiano. Seus comentários são muitos interessantes e concordo plenamente. Parabens pelo super blog!

  8. Por ter morado em vários países nas ultimas décadas, e por ser cidadão brasileiro, italiano, e americano, eu estou plenamente familiarizado com o conceito de “cidadão do mundo”, com suas consequentes distinções emocionais, intelectuais e sociais.

    Mas confesso que nunca li uma analogia tao moderna e interessante quanto a que você expôs acima, a do computador novo. Pois imagino que todos os seus leitores de uma certa idade já passaram por essa experiência do computador novo, e entenderão perfeitamente a sua analogia tao fácil e precisa.

    Então parabéns pelo conceito, uma idéia simples, pertinente, e elucidante, que você desenvolveu bem no texto.

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