Não existe nada mais interessante do que a participação dos leitores. Dessa vez não me refiro aos comentários aqui no blog (que eu adoro), mas a seção de cartas das revistas. Às vezes me deparo com tiradas ótimas. Na Vanity Fair dessa semana, uma leitora pergunta:

L’altra sera, mentre lavavo i piatti… A proposito, direttore, ma lei li lava mai?
E eis que o diretor responde:
Quando ero bambino, sognavo che da grande avrei avuto una casa uguale a quella dei Jetson (ricorda I Pronipoti?), con i tapis roulant per andare da una stanza all’altra, il box per l’astronave e, soprattutto, un robot-massaia come Rosie. Magari quando andrò in pensione (verso i novant’anni temo) qualche inventore ci avrà pensato. Nel frattempo, i piatti li lavo si’. Pensava che li buttassi direttamente in pattumiera?”

O texto me surpreendeu. Fiquei pensando o que responderia a diretora de redação de uma revista brasileira Sabe, não é que no Brasil vivem no tempo dos Jetsons. Ainda não chegamos lá. Mas a classe média no país tropical simplesmente não sabe viver sem empregada doméstica.

Na verdade ninguém mais diz “empregada doméstica” para não parecer que ainda têm uma mucama. Muitos falam “a moça que trabalha lá em casa” ou simplesmente chamam pelo nome “Ah, a Martinha…”.

Outro dia estava assistindo um trecho do Programa do Jô que vi lá no Nostro Sito. Enquanto rolava uma entrevista sobre o lixo, o Jô comentava “Se eu tô em Nova York sou eu que faço a coleta seletiva, mas aqui quem faz tanto a Tetê quando a Marluce, que são minhas duas queridas baianas (…)”

Passam alguns minutos, é a vez da entrevistada: “E as meninas em casa, a Miriam e a Célia estão orientadas para fazer isso”. Que meninas, pergunta o Jô. E a entrevistada repete: “a Miriam e a Célia!” Aí o Jô entendeu.

Aliás, quanto mais poderoso você é no Brasil, mais mucamas você tem. Uma só não basta. Mas na era do politicamente correto, nada de usar termos que podem lembrar a escravidão ou submissão, por favor, hein!

Mas vamos voltar ao caso do diretor de redação italiano. Não podemos dizer com certeza se ele lava ou não a bendita louça quando está em casa, mas o fato que chamou atenção é que ele fez o possível para dizer que lava, como todo mundo.

Dá para entender a sutileza entre as sociedades?

11 COMENTÁRIOS

  1. Muita gente metida a besta também diz “minha secretária”. Quado ouvi isso pela primeira vez achei que fosse alguém que fazia serviço de escritório, mas não era. A pessoa estava se referindo à pessoa que faz serviços de faxina, ou seja, faxineira!
    Jeanne

  2. @ Jeanne
    Essa de minha secretária eu ainda não tinha ouvido, mas era só o que faltava…

  3. Aqui na Italia é muito dificil ter uma colf (collaboratrice familiare, quer termo mais politicamente correto que este?) em casa. So se o casal tem dinheiro e mais de um filho (se for pequeno). Uma das minhas professoras da universidade (universidade privada), com marido engenheiro, nao tem uma ajudante em casa: é ela que limpa a casa, ajudada pelo marido, cozinha e cuida da filha. Ja ouvi casos de que as colf daqui nao limpam a casa como deveria, muitas limpam so o visivel….

  4. É verdade, “colf” é o termo mais politicamente correto que existe!
    Sobre a questão fazer faxina, acho que a gente acostuma e deixa de ser um bicho de sete cabeças. Bem, se eu morasse em uma casa gigante não sei se teria a mesma opinião, mas quando isso acontecer eu penso na questão colf.. rs!

  5. Onde eu moro nao tem tanta poluiçao, se fosse em Sao Paulo nao teria como nao varrer e tirar o po em casa por mais de 3 dias. E ainda com a casa praticamente fechada o dia todo, faxina é quinzenamente. Agora a limpeza do dia-a-dia eu faço por partes: um dia os quartos (ainda bem que sao so dois), outro dia a sala, outro dia a cozinha, o banheiro, quando faz calor e nao chove as varandas, as janelas… mesmo porque nao tenho tempo de ficar so limpando casa.
    Também usaria uma colf se morasse em uma casona e tivesse filhos.

  6. @Juliana
    Casa limpa é uma maravilha. Mas realmente ficar só limpando casa não dá, né.

  7. Pois é, tenho muito mais coisas interessantes para fazer e obrigaçoes mais importantes do que limpar a casa 😀

  8. Estou cegando atrasada nessa conversa… mas sabe o que eu acho o mais engraçado? A classe média brasileira tem, em via de regra, empregada. Então, nenhuma madame, nem nenhuma nem tão madame assim, põe a mão na massa mesmo da limpeza. Aí elas vão para a Europa, CHIQUÉRRIMO! E entram nas casas das européias que trabalham fora, cuidam das crianças, fazem as compras e ainda lavam, passam, cozinham, limpam… olham a casa delas e dizem: “Ô povo porco! Não mexe nem o sofa para limpar!” Francamente? Você mexeria? Fala sério!

  9. @Karen
    Está chegando atrasada, mas é muito bem vinda.
    Você falou tudo! Realmente é até divertido ver as brasileiras, que nunca tocaram em um produto de limpeza, criticando as casas alheias…

  10. Sim, é mesmo assim… mas, é gostoso "imparare ad avere cura" das próprias coisas… "o olho do dono é que engorda o cavalo"… porem, o que me incomodou mesmo da cultura italiana foi o fato de não sentir liberdade de poder fazer qualquer minima coisa com liberdade que não estivesse dentro da "normalidade", por exemplo, andar depois do almoço em vez de -obrigatoriamente- ir deitar… quero dizer, existe toda uma programação diária, quase igual para todos, onde, qualquer "mossa" diferente causa um certo transtorno, e ate dificulta os relacionamentos mais corriqueiros…

    Abraço.
    toresimo@hotmail.com

  11. Oi Simona, tudo bem?
    As cidades pequenas são em geral os lugares onde as pessoas mais reparam na vida alheia, mas não dá bola para isso não. Se alguém vier reclamar, fala para ir cuidar da sua vida. 🙂
    Você não é obrigada a deitar depois do almoço, mas pode aproveitar a folga a mais para fazer o que quiser. Não é bom ter um tempo para cuidar de você?
    Bem vinda ao site,
    abs,
    Babi

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