Adoro aqueles livros pequenininhos, formato de bolso, com capítulos curtos (de 2 a 3 páginas), que a gente pode ler tranquilamente dentro do ônibus, no trem ou na fila do correio. Depois de devorar o pocket book do Paulo Gaudêncio em versão italiana, agora é a vez do “Clássicos do Mundo Corporativo” de Max Gehringer, em português mesmo.

Sempre gostei dos textos de Gehringer e acompanhava suas colunas para a revista Exame. Em poucas linhas e com muito bom humor, ele conseguia transmitir conceitos interessantes, que servem não apenas para a vida corporativa e para aqueles que querem construir carreira, mas para o simples dia-a-dia.

Tomei a liberdade de publicar aqui para vocês o capítulo 15 do livro publicado pela Editora Globo:

A compreensão do óbvio

Já passei alguns dissabores na vida profissional por me esquecer de falar o óbvio.
O óbvio é aquela coisa que achamos que, por ser tão óbvia, nem precisa ser dita, porque todo mundo já está cansado de saber. Mas, na prática, não é bem assim.
Havia alguns anos, trabalhava na empresa líder do ramo de batatinhas fritas. Nosso produto tinha uma liderança enorme e folgada, coisa de 70% do mercado. Um dia, um concorrente resolveu escrever no pacotinho de batata esta frase: “Não contém colesterol”.
Não passou uma semana e os nossos gerentes pelo Brasil afora começaram a me ligar para perguntar se não poderíamos também fazer uma batatinha frita sem colesterol. Era óbvio. Batatas são fritas em óleo vegetal, e óleo vegetal não tem colesterol. Apenas gordura de origem animal tem colesterol.
O que era óbvio para mim não era óbvio para o consumidor. As vendas começaram a cair até que determinado dia me rendi ao óbvio. Pedi para escrever bem grande no pacotinho: “Totalmente sem colesterol”. As vendas voltaram ao normal. Os meus gerentes até escreveram elogiando o sabor da nova batatinha sem colesterol, sem acreditar que a batatinha era a mesma de sempre.
Daquele dia em diante, aprendi que boa parte dos mal-entendidos e dos desencontros em empresas acontece porque alguém achou que não precisava ficar repetindo todos os dias o que todo mundo deveria estar cansado de saber. Mas por que estou dizendo essas coisas, já que são tão óbvias? Exatamente por isso.

Oras, se mal entendidos acontecem dentro de um país, com a mesma língua, imagina quando misturamos culturas diferentes! É muito normal encontrar dificuldade de comunicação entre brasileiros e italianos exatamente por querer evitar repetir o óbvio. O que é óbvio para um brasileiro não é tão óbvio para um italiano (e vice-versa).

Quando você perceber que não está obtendo a resposta esperada do seu interlocutor talvez seja o caso de questionar-se se seu interlocutor entendeu o que você quer.

É por isso que acho importantíssimo frequentar cursos de línguas antes de visitar um país: para aprender não apenas a gramática, mas as entrelinhas culturais. Não há curso de idiomas que seja suficiente para evitar erros e gafes, mas já é um ótimo passo avante…

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here