Imagine um lugar distante, do qual sempre ouviu falar desde criança. Foi a partir desta busca, e realização de um sonho, que segui em direção ao interior de Salerno (Sul da Itália). Fui atrás de minhas raízes, praticamente escondidas a cerca de uma hora de viagem, de carro, morro acima. Era como estar indo para o céu. E encontrei o lugar já perto das nuvens.

Foi fácil reconhecer o mesmo panorama que cresci ouvindo falar

Uma pequena aldeia encravada nas montanhas, daquelas que parecem ter saído de um conto de fadas, de tão belas paisagens, onde se pode ver o mar tocando os montes repletos de oliveiras e figueiras, proporcionando um lindo visual e uma bela atmosfera. Cheguei vivo no céu!

É lá que o céu beija o mar

Claro que a coisa fica mais bonita quando, quem narra, já possuiu repertório de memórias emotivas do lugar. Mas garanto que até quem for lá pela primeira vez, vai sentir a magia do local. Até por que, a fama da beleza litorânea daquela região, banhada pelo mar Tirreno, já é mundialmente conhecida e por isso fica fácil de imaginar do que estou falando.

Falo do cheiro presente no ar, do povo hospitaleiro, do sabor dos frutos que a terra dá, aromatizados pelo tempero do mar, que sobe levado pelo vento, e perfuma tudo. Oliveiras que uma vez por ano se permitem colher aos montes; e figos que, secos artesanalmente e naturalmente ao Sol, é um espetáculo ao mais exigente paladar e o olhar. Água na boca e lágrima nos olhos.

As oliveiras: com redes enroladas, é uma linha de produção natural de ótimos azeites
Figos: Secos ou recém-colhidos saciam olhos e estômago

Meu avô deixou essas terras (que hoje dever ter um pouco mais de 200 habitantes), a mais de meio século, partindo para o Brasil. E eu, pela segunda vez, fazia o caminho inverso por vários motivos: estreitar os laços entre os continentes; rever sua gente e colher material para eternizar a sua, e um pedaço da minha, história. Registrei quase tudo. As construções; as crenças; procissões da região e uma beleza natural, sem igual.

Casas e ruas resistem ao tempo e preservam a memória lá no alto
Estátua de Padre Pio e procissão da Madonna delle Grazie: a religiosidade abençoa a beleza

Uma curiosidade de lá, é que antigamente o ditado que identificava o pequeno paese era: Capograssi, fa la Croce e pass (Capograssi, faça a cruz e passe) fazendo referência a uma época em que o povoado vivia uma época mística, cheia de acontecimentos difíceis de acreditar nos dias de hoje, onde até nesses lugarejos não existem mais espaços para os milagres. E da última vez que eu lá estive, fiz o mesmo sinal, mas na intenção de pedir para poder voltar e novamente experimentar coisas que não consegui nem registrar, nem levar desta vez. E não foi por conta de peso da mala.

A vizinha Serramezzna (onde fica a prefeitura) e uma bella massa! Pedaços do paraíso.
Um divino tramonto para eternizar e guardar para sempre

Não consegui portar o aroma; o carinho das pessoas e nem a imensa beleza da Lua que brilha toda noite por lá. A máquina fotográfica não conseguiu captar. Mas interpretei isso como um novo convite para retornar e reguardar nas retinas. Seria minha próxima missão, pois dessa última vez, conclui a que eu tinha. Escrevi, no presente, um livro contando a história da minha família (meu passado), impedindo que a trajetória se perca no meu futuro, enquanto os capítulos da minha vida vão seguindo. Assim como a minha viagem pela bota.

Na entrada da aldeia, uma placa identifica a tradição. Nas páginas de meu livro, registrei a emoção

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Fernando Ferrari (fffernandoferrari@gmail.com) é brasileiro de nascimento, francês de cidadania e italiano de coração! Publicitário, escritor amador, mora em São Paulo, já esteve na Itália duas vezes e mantém o blog www.cabecatroncoetextos.blogspot.com Um dia pretende trabalhar e viver mais tempo por lá, mas enquanto não surge uma oportunidade, escreve para diminuir a saudade.

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